Por Fabiana Ribeiro

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Vítor, aos 4 anos, feliz com sua roupa que o torna o Super Mario

Eu já vinha conversando com ele que os olhinhos dele eram pretos. E não verdes, castanhos ou azuis. Eram pretos, pois ele não tem as bolinhas coloridas, apenas as pretas. E que isso afetava a visão dele. Ele não estava muito satisfeito com isso, quando veio conversar comigo, curiosamente dentro da escola:

– Eu não queria que os meus olhos fossem pretos.

– Eu também não queria que meus olhos fossem castanhos – retruquei.

– Eu não queria que os meus olhos doessem no sol. Mas meus olhos só gostam da lua, mamãe.

– Bem, não há nada que eu possa fazer quanto a isso. Os óculos escuros podem te ajudar. E você tem vários – disse eu com uma naturalidade forçada, porque a vontade era pegar no colo, dizer que o sol é um cretino por ferir seus olhos e que não se preocupasse que isso tudo vai passar.

– Eu queria que meus olhos fossem azuis.

– Posso te confessar uma coisa? Eu queria que os meus olhos fossem cor de rosa, como imagino que são os olhos das princesas de verdade. E também queriam que meus cabelos fossem lisos. Mas eu nasci desse jeito. Posso fazer uma escova de vez em quando ou botar uma sombra nos olhos… Mas, fora isso, não há muito o que fazer…

– Olho cor de rosa, mamãe. Isso ia ser engraçado!

E rimos disso. Ele, verdadeiramente. Eu, com um nó.

Dias se passaram, e a questão – da descoberta – veio parar em sala de aula. A então professora me pegou na saída e discretamente veio conversar comigo.

– Vítor já sabe que ele tem uma questão nos olhos, Fabiana? Tenho achado que ele vem agindo de forma estranha… Como vocês lidam com isso?

– Com naturalidade, sem dramas ou exageros. E, sim, ele sabe. Mas vamos perguntar para ele…

E perguntamos:

– Eu tenho aniridia – respondeu ele, apontando para os olhos com as duas mãos e seus 10 dedos. – Isso não é segredo.

Isso não é segredo. Isso não é segredo. Isso não é segredo. E, ora, ora, por que seria mesmo?

As melhores pessoinhas que comprovam que não é segredo são os colegas de classe. Tem aquele que quer ajudar o Vítor. Tem aquele que explica que o Vítor tem que sentar na frente porque “ele enxerga menos do que eu”. Tem aquele que vem correndo para lhe dar a mão. E tem aquele que lhe puxa o brinquedo ou lhe dá um safanão: “Afinal, amigão, somos ou não somos iguais?”.

13 comentários em “Agora é oficial

  1. Imagino o nó na garganta (aliás, imagino não, sei exatamente como é, hehehehe). Mas é isso aí, amiga, conhecendo o Vítor como eu conheço, posso dar uma de vidente e dizer que esse obstáculo pra ele vai ser fichinha. Simpático e sapeca que só!

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  2. Fabi, lindo depoimento, assim como o Vitor. Tbém fiquei com um ” nó” qdo li este artigo: o Andrés tbém passa por determinados momentos de exclusão por sua fala um pouco enrolada e ou letras trocadas, e já pegamos algumas crianças rindo dele ou caçoando do mesmo,e até excluindo-o de determinadas brincadeiras ou atividades.Como pais tbém temos vontade de ” livrá-lo destes momentos, mas não é possivel A única coisa que podemos fazer é faze-lo sentir-se amado e especial. e dizer a ele que não se importe com os comentários, porque todos somos diferentes, ninguém é pior ou melhor que ninguém e isto é que faz a diferença… .BJos

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  3. Estou com olhos cheios de lagrimas. Para nos pais e bem mais dificil ver que uma crianca tenha que se constatar com sua realidade tao cedo. Mas o que eu aprendri trabalhando com criancas especiais, ao reencontrar-las, e que se transformam em super-herois: sao fortes, com o coracao que batalha para os mais fracos, e simplesmente fantasticos. Parabens mamae por ser a mae de um super-heroi.

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    1. Obrigada! Essa constatação me pegou de surpresa. Não estava esperando por isso tão cedo. E isso por mais que sempre falássemos sobre sua condição em casa. Mas foi bom.
      Obrigada, Meu super-herói é meu grande amigão!!! Beijos, Fabiana

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  4. Em um belo dia de sol estava com nosso Vitinho na praia e ele escutou o barulho do trator e começamos uma conversa:
    – Pai, voce está vendo o trator?
    – Sim, filho, está um pouquinho longe, mas estou vendo.
    – Mas eu não estou vendo.
    – Mas vc está escutando, não está?
    – Sim!
    – E, voce já sabe como é um trator, não sabe?
    – Sim, pai! Ele tem rodas grandes atrás e outra menor na frente, ele tem um moço que dirige lá em cima. Qual a cor dele, pai?
    – Isso mesmo! a cor é vermelha.
    – Já sei como é então.

    Sua imaginação pode levar sua pouca visão ser mais profunda e ultrapassar limites da própria visão.

    Bem, senti vontade de contar essa história, apesar de não ser adepto dessas ferramentas digitais.

    Parabéns pela iniciativa do “PARATODOS”! Vocês têm uma responsabilidade significativa e serão recompensadas, com certeza, com muitas vitórias.

    Abraços, Magno

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