PARAVOCÊ por Alessandra Klabin

Johann, que tem quase 3 anos,  tem síndrome Cri Du Chat*. Faz fisioterapia três vezes por semana. Duas delas, à tarde. No centro comercial onde fica o consultório, tem um parquinho. Então, pensei: “por que não chegar mais cedo nessas duas vezes e brincar com ele antes de entrarmos?” Levei a ideia ao meu marido, que adorou. Porém… o parquinho não tem UM brinquedo que ele seja capaz de usar sem ser no meu colo.

IMAGEM: O pequeno Johann está num balanço, que tem uma proteção frontal verde. A mãe está no canto esquerdo da foto apoiando a diversão do filho, que veste calça caqui e blusa de manga comprida preta com listras verdes e brancas. Está sem sapatos, mas usa meias.
IMAGEM: O pequeno Johann está num balanço, que tem uma proteção frontal azul. A mãe está no canto esquerdo da foto apoiando a diversão do filho, que veste calça caqui e blusa de manga comprida preta com listras verdes e brancas. Está sem sapatos, mas usa meias.

É um parquinho simples com cinco brinquedos: um carrossel, uma gangorra, um brinquedo giratório, um balanço simples e um escorrega, além de uma casinha. Não me incomodo em brincar com ele. Só que… Dos cinco brinquedos, ele só pode brincar em um e, ainda assim, no meu colo. No brinquedo giratório, pode ficar no meu colo e eu giro o banco. Se o escorrega tivesse as laterais mais altas, ele poderia. Se o balanço fosse de cadeirinha com cinto, poderia. Se o carrossel tivesse pelo menos uma cadeirinha com cinto, poderia. Seriam quatro brinquedos para brincar e não apenas um.

Preciso ir ao parque quando está vazio, pois não quero ocupar lugar de outra criança. E, ainda ter que lidar com mãe que acha que meu filho é bebê, pois ele parece realmente um, e ter que ouvir “Ah, ele não é muito novo não? Ele ainda não entende!”. Sim, já ouvi MUITO isso ao levá-lo a teatro, cinema etc. E muitas iam ficar chateadas por ter uma adulta brincando com um “bebê” e, portanto, tirando o lugar do filho de alguém. Eu não tenho paciência para enfrentar olhares fuziladores…

No dia em que sentei ali com ele, apenas para observar, as mães achavam lindo ele estar gargalhando. Estavam admiradas com um “bebê” que já curtia olhar outras crianças. Já eu segurava as lágrimas, literalmente, pensando como eu ia fazer para incluir ele ali. Porque eu queria mesmo que ele brincasse no meio daquela bagunça. Quanto mais ele ria, mais eu precisava segurar o choro. Ele estava feliz com a felicidade dos outros, mas ficaria ainda mais se participasse de tudo aquilo.

Já o levei diversas vezes em parquinhos, nos prédios das avós. Mas sempre eu e ele…

Meu marido sugeriu que pedíssemos à administração do local que providenciasse a inclusão e acessibilidade ali. Meu filho não é o único com deficiência que frequenta o centro comercial. Lá é um lugar seguro, onde se localiza um consultório que atende a muitas outras crianças, que, inclusive, devem olhar e ficar com muita vontade de entrar para brincar. Que pelo menos tenham três brinquedos e não apenas um.

* A síndrome Cri du Chat é uma condição relativamente rara, que consiste no apagamento de material genético do cromossomo 5. Seu nome vem do choro dos bebês que lembra o miado de um gatinho. As principais características são atraso global de desenvolvimento e baixa estatura.

6 comentários em “Brincando no parquinho. Ou melhor, querendo…

  1. tenha força para aturar os olhares e engula o choro, mas chore quando houver necessidade, seu filho é muito mais importante do que os olhares e pensamentos dos outros, talvez ser “ofensiva” e falar “ele tem uma mutacao do cromossomo no. 5” deixasse as pessoas tao perplexas, que elas ate repensassem a atitude em relacao a ti. coragem, o mais importante é o bem estar dele.

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