IMAGEM: homem (Woody Allen) sentado de lado perguntando: Quem? Eu?
IMAGEM: homem (Woody Allen) sentado de lado perguntando: Quem? Eu?

Por Fabiana Ribeiro

O blog tem nos rendido por aí alguns elogios. E-mails de amigos ou desconhecidos encantados com o projeto. Gente feliz de poder participar. E, tapinhas nas costas e beijinhos no rosto, de parabéns. Mas me chamou atenção a reação de uma conhecida – que me autorizou, desde que sem revelar o seu nome, a contar essa história aqui.

Essa conhecida veio elogiar o blog. Veio dizer que está adorando falar mais de inclusão. E que acha “linda” toda essa discussão sobre um tema tão relevante para nossa sociedade. “Não podemos parar de pensar nas crianças. Eles são uma graça”, emenda. No entanto,  ela me vem com a seguinte pergunta:

– Mas, querida, o que você tem a ver com isso? Vítor está ótimo, é um fofo, está lá com os oclinhos dele, vivendo a vida. O que você tem a ver com isso? Esse negócio de inclusão não é pra quem tem questões mais sérias?

Confesso que tomei um susto. Parei, atônita. Fiquei sem palavras, como muitos sabem que reajo quando estou nervosa. Mas respirei fundo:

– Eu tenho tudo a ver com isso. Todos temos tudo a ver com isso. Inclusão é para todos. Existem algumas coisas que são visíveis; outras, não. Existem personalidades distintas, habilidades diversas. A inclusão é dar acesso a todas  elas, sejam míopes, estrábicos, obesos, magrelos, diabéticos, alérgicos, autistas, gagos, brancos, normais…

– Como assim??

– Veja o exemplo que eu tenho em casa. O Pedro é, como dizem por aí, normal. Mas ele tem um defeito, digamos assim: ele tem alergia. Já precisei que, na escola, dessem banho nele e passassem um creme após atividades num parquinho. Uma professora, há um tempo, percebeu sua reação ao giz e mudou seu lugar em sala, para distante do quadro,  e passou a carregar, para ele, um gel antisséptico na sua bolsa. Só para ele. Isso é inclusão. É olhar a necessidade do outro.

–  Ah, isso foi um gesto da professora. Mas ela não precisou fazer muita coisa. Imagina tem criança que precisa de mediadora, que precisa que mude o material, que atrapalha, que precisa de tanta coisa, A escola tem que fazer, claro. Se não, tadinho, dá uma peninha, eles sofrem… E o Vítor nem atrapalha ninguém…

– A inclusão forma seres humanos melhores, cidadãos de verdade. E não gente egoísta que só pensa no próprio umbigo. Vítor realmente não atrapalha, mas, até que ponto isso é bom? Espero que ele fale, grite, esperneie se não estiver enxergando. Mas tem criança que reage se isolando, não se desenvolvendo completamente ou sofrendo bullying. Outra coisa é que, sim, eu preciso reconhecer as limitações do meu filho e ensiná-lo a ser independente e a ver o que dá e o que não dá. E daí correr atrás. Não estou entrando nessa apenas pelo Vítor: tenho dois filhos, lembre-se…

-Ah, sei não, na escola dos meus filhos, eu não vejo muitos casos assim, não. Não sei como é. Eu continuo achando que você não tem nada a ver com isso. Eu acho que isso é pra outras pessoas, outros tipos de crianças. Não me entenda mal. Eu acho bacana, acho mesmo essa coisa de inclusão. Acho bonito mesmo.

Não sou especialista em inclusão. Ainda estou engatinhando no tema, mas acho que sei o básico: o mundo é de todos. O que significa, basicamente, respeitar a diversidade, não rotular as pessoas, olhar e enxergar o outro e adaptar o que quer que seja para que ninguém fique pra trás. Seja ele como for. Mas, para isso, é preciso urgentemente mudar a mentalidade das pessoas. Tirar o “eles” e pensar em “nós”. Fazer com que pensem fora da casinha, saiam do seu quadrado e sejam, de verdade, seres humanos.

Mas e você? O que você tem a ver com isso?

5 comentários em “O que você tem a ver com isso?

  1. Fico muito triste quando vejo que as pessoas só estão dispostas a nadar quando a água bate na bunda… inclusão é para todos e de todos, porque todos nós precisamos dela. Quando a pessoa enxerga o “normal”, sem considerar que existem, como você falou, os canhotos, os estrábicos, os míopes, os disléxicos… bem, lembre a elas que elas, um dia, ficarão velhas e, mesmo que fora da escola, precisarão que os outros compreendam que a idade traz limitações e que inclusão também está aí, em fazer o mundo acessível para quem perde, pela idade, a sua capacidade plena de locomoção. E, num tom mais dramático, estamos todos sujeitos a acidentes, estamos todos sujeitos a adquirir essas “dificuldades mais graves”, num piscar de olhos… e aí, só vai se preocupar com a inclusão quando a pimenta estiver nos nossos olhos?
    Inclusão é de todos, para todos e não deve ter limites!

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  2. Reflexão perfeita…o mundo é para todos mas infelismente as pessoas só pensam no assunto quando a água bate na bunda mesmo…entender o diferente é difícil mas é possível e verdadeiro…..parabens pela sua atitude.

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      1. Parabéns para vocês: Fabiana Ribeiro,Carla Codeço e Ciça Melo. O que nos motiva a defender, abraçar e acreditar numa causa justa e sabermos que não estamos. sozinhos. Que nossas vidas são como o curso do sol, no momento mais escuro, temos a esperança da luz do dia e quando usamos o amor,a coragem, a união, a solidariedade a inteligência e a sabedoria ao nosso favor, podemos concretizar todos os nossos sonhos. Li alguns depoimentos que foram suficientes para refletir o quanto podemos “aprender com o Rafa” embarcando numa viagem diferente, uma viagem rumo a “inclusão para todos”. Que poderemos sim,esperar da escola, uma cumplicidade nesta conquista, que cada criança que está ali, pode “aprender “crescer”, “socializar” e ser feliz. Basta tratá-las com grandeza que elas se mostrarão grandes. Termos a consciência que não podemos viver como estivéssemos sozinhos numa ilha. É importante olharmos não só para frente, mas também, para os lados e vê ” a necessidade do outro”
        Termino deixando aqui umas “palavras de sabedoria” que tem muito haver com este lema:
        “Trate as pessoas como se fossem o que deveriam ser e você as ajudará a se tornarem o que são capazes de ser”

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  3. É impressionante como ainda tem pessoas que pensam assim, acham que o mundo gira em torno do próprio umbigo. Como assim a gente não tem nada a ver com isso? Temos TUDO a ver com TUDO. Só assim poderemos construir uma sociedade mais humanitária, mais fraterna e racional. Me importa saber o que se passa com seu filho e da atitude que você tomou para resolver qualquer questão relativa, pois um dia, lá na frente, certamente eu vou precisar lançar mão da sua solução para resolver o MEU problema que, aparentemente, nada tinha a ver com ele. Como as pessoas não conseguem enxergar isso, que os problemas são interligados e todos precisam de todos? Estou chocada! Parabéns, Fabi, pela sua iniciativa.

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