IMAGEM: Foto em preto e branco de uma turma de crianças numa aula de desenho que copiam exatamente a mesma imagem do quadro em suas telas.
IMAGEM: Foto em preto e branco de uma turma de crianças numa aula de desenho que copiam exatamente a mesma imagem do quadro em suas telas.

Por Carla Codeço

Fico, a cada dia que passa, mais surpresa com os efeitos nada terapêuticos que algumas terapias provocam. Crianças sem espontaneidade, sem a alegria, o senso de humor e a peraltice próprios da infância.

São crianças ensinadas em cada atendimento a se encaixar, a exibir um comportamento normal. É como se nascessem com uma “dívida” em seu desenvolvimento, sendo obrigadas a recuperar esta defasagem evidenciada pela comparação a outros indivíduos de mesma idade. Em vez de receberem as condições necessárias para aprender, são condicionadas através das simulações da vida real dentro de consultórios. A estas crianças é mostrado, desde a mais tenra idade, como devem se comportar para se encaixarem no padrão aceitável.

As crianças normalizadas podem ser reconhecidas à distância: acabam se assemelhando àqueles androides dos filmes de ficção científica, que parecem humanos, mas têm um quê de robô.

Não quero com isso dizer que não devemos propiciar as terapias necessárias para que os potenciais de nossos filhos possam ser melhor desenvolvidos, mas devemos lembrar sempre que eles têm direito à infância, ao seu tempo de ócio. Devem vivenciar a conversa em família, e não apenas terem acesso à conversa simulada na sessão de terapia. Devem aproveitar seu tempo de ócio em casa para recortar, rabiscar, pintar, livremente, não apenas no ambiente simulado do consultório. Devemos também ter cuidado ao estender o ambiente terapêutico para dentro de nossas casas, para que não nos tornemos profissionais padronizadores dos nossos filhos.

Ao imputarmos aos nossos filhos a obrigação de passar no funil normalizador estamos retirando-lhes a alegria e a espontaneidade infantis. Em vez de aceitarmos as limitações que a síndrome impõe, estaremos, nós mesmos, impondo várias outras limitações emocionais que a própria síndrome não acarreta. Falo da síndrome de Down.

A partir de um determinado momento, no acompanhamento das terapias do meu filho, percebi que os profissionais e métodos me ofertavam dois caminhos a seguir: ou nos esforçaríamos para passá-lo pela fôrma normalizadora ou daríamos a ele a liberdade de ser como ele é e, de mãos dadas, ajudaríamos no que fosse preciso para o seu crescimento global. Optei pela última proposta e hoje vejo meu filho feliz, espontâneo e levado, como toda criança de sua idade que tem o privilégio de viver uma infância saudável.

2 comentários em “O efeito não terapêutico das terapias

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