IMAGEM: A foto em, preto e branco, mostra um caderno espiral aberto. Sobre o caderno,  uma caneta e tinta (carga). Não há nada escrito nas páginas.
IMAGEM: A foto em, preto e branco, mostra um caderno espiral aberto. Sobre o caderno, uma caneta e tinta (carga). Não há nada escrito nas páginas.

Por Ciça Melo

Aos cinco anos, e principalmente sendo muito inteligente e observador, era óbvio que ele já havia percebido algo de diferente nele mesmo. Seus irmãos, com 7 e 9 anos, notaram ainda mais essa sua diferença. Vinha aí a questão: o que falar para ele? E mais: o que falar para os irmãos? Tudo ainda muito difícil, até porque não sabíamos o que falar para nós mesmos e muito menos o que dizer aos outros.

Eu já sabia que Daniel escutara que tinha epilepsia. No meu entender, ouvir um nome destes sem ter uma explicação poderia ser muito ruim. Digo isso porque me lembrei de uma experiência anterior, quando estávamos no urologista em função de uma hérnia. Enquanto o médico me explicava todo o procedimento cirúrgico, Daniel começou a fazer várias perguntas. Acima de tudo, ele queria saber se precisariam “abrir sua barriga”. O médico achou melhor dizer que não e que ele apenas dormiria no hospital.

Senti imediatamente que ele não se convencera. Então, combinei o seguinte:

“Daniel, enquanto a mamãe conversa com o médico, você brinca aqui ao meu lado. Chegando no carro, explico tudo o que vai acontecer, ok?”. Imediatamente, foi brincar com um trenzinho.

Após a consulta, descemos o elevador, atravessamos a rua e chegamos no carro. Eu o coloquei na cadeirinha e sentei ao volante. Ainda bastante pensativa e tentando digerir que meu filho de, então, 4 anos precisaria se submeter a uma cirurgia com anestesia geral. Nenhuma mãe gosta de ter que pensar nesta situação.

Mas Daniel me tirou dos meus pensamentos rapidamente quando me perguntou: “Então, mãe, ele vai abrir a minha barriga e fazer o que exatamente?”. Ali, eu tive a certeza de que ele havia entendido que passaria por uma cirurgia e que seria ingenuidade minha dizer que ia “dormir” apenas. Resolvi explicar tudo o que aconteceria e, para deixá-lo tranquilo, lembrei que haviam “aberto a minha barriga” três vezes (Lucas, Luiza e ele nasceram de cesárea). Neste dia, ficou claro pra mim que Daniel preferia explicações claras e que já conseguia entender muito mais do que imaginávamos.

Por isto, quando todos os especialistas me diziam que não havia necessidade de falar com ele sobre sua questão, isto não fazia sentido para mim. Meu marido também concordava com os especialistas e eu ficava meio sozinha. Depois de muita insistência, a terapeuta de família sugeriu que conversássemos todos juntos e que, em vez de focarmos nas questões do Daniel, conversaríamos sobre as dificuldades de cada um da família. Foi uma sessão de uma hora e meia onde, em roda, cada um de nós cinco falávamos sobre a própria dificuldade ou alguma dificuldade que via no outro.

A terapeuta anotava no quadro o que ia sendo dito. Obviamente, não se falou em epilepsia ou superlotação. O que ficou registrado era que Daniel tinha “dificuldade em se controlar”.

Assim como a explicação de “apenas dormir” não ter colado, saí daquela sessão com a mesma sensação. Daniel não havia se convencido com aquela explicação, mas, diferente da outra vez, ele não perguntou nada. Eu também me silenciei.

Gostaria de ter dito tudo que ele precisava ouvir para se sentir seguro. Para calar, mesmo que apenas por um momento, seus questionamentos e permitir que relaxasse. Mas, desta vez, não fui capaz. Nem sempre somos. E talvez sejam destes momentos que a culpa da mãe se alimenta.  Se alimenta de forma a permanecer ali, a nos acompanhar desde o momento do parto até o último dia.

9 comentários em “O que falar pra ele afinal?

  1. Ciça, ainda não acabou… não vejo razão para o sentimento de culpa, embora o compreenda. A gente só aprende o que fazer vivendo o problema. Livro é livro, gente é gente. Não há palavras suficientes para expressar de verdade o que sentimos e aprendemos com as situações com que nos deparamos. O que importa é procurar fazer sempre melhor. E o seu amor vai guiar você no aprendizado e na ação. E o Daniel saberá perceber isso. Um beijo grande.

    Curtir

  2. Ana, tem momentos em que a gente precisa se calar mesmo. Precisamos digerir as informações reveladas para pensar na melhor maneira de explicar.
    O Daniel merece uma explicação, mas é importante ficar atenta às suas perguntas para não falarmos além do necessário.
    Força porque você não está sozinha!

    Curtir

  3. Acho que o caminho é esse, o da sinceridade, mas ao mesmo tempo sentindo e respeitando o tempo dele (e dos irmãos!). Lá em casa, o Rafa, que tem 2 aninhos, outro dia me perguntou, referindo-se ao irmão, Felipe, de 7: “O que ele está falando, mamãe?” com aquela cara de quem não está entendendo nada… Já começa a perceber que o irmão não sabe falar direito… Mas ainda é muito novinho, então dei uma explicação simples: “Não entendi, amor, ele está aprendendo a falar, às vezes também não entendo o que vc diz, né?”.

    Curtir

  4. Ciça, acho que a verdade é o melhor caminho, mesmo quando ela implica uma falta de respostas definitivas. Lá em casa, sempre que algum dos meninos critica ou expõe uma fragilidade do outro, lembro a eles que eles também têm as suas fragilidades. Faz parte da natureza humana.

    Curtir

  5. Ás vezes uma resposta simples é o suficiente para o entendimento da criança. Ir muito além de sua maturidade pode deixá-lo ainda mais confuso. Mas como essa maturidade é diferente de criança para criança, só você poderá saber a hora certa de aprofundar determinadas questões. Se ele não perguntou mais nada é sinal de que naquele momento a sua resposta foi suficiente para ele. O caminho nem sempre é fácil, mas o importante é não estacionar e continuar seguindo em frente. Beijo carinhoso.

    Curtir

  6. Oi Ana, que texto lindo e difícil! Verdade seja dita, a verdade é muitas vezes muito difícil de falar, mas as crianças sabem tudo… Quando a coragem chegar fale, acredito que será melhor todos vocês. Deixa a culpa de lado, você não merece sentir culpa! Um grande abraço com muito carinho dos amigos paulistanos.

    Curtir

  7. Ciça
    Pense que você está sendo corajosa e muito dedicada, mas como “mãe” sempre queremos resolver tudo, afastar as dúvidas dos filhos, amenizar medos e de certa forma sempre o fazemos, mas achamos que não foi o suficiente e nos cobramos, mas, cada dia que amanhece nos traz novas perspectivas e possibilidades de fazermos melhor algo que não foi tão bom no dia anterior ou de sermos mais assertivas no momento seguinte, como” mãe” também podemos ter dúvidas, errar, tentar de novo e é isso que nos dá confiança para continuar, pois o amor pelos filhos e pela familia nos mostra o caminho.
    Um forte abraço!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s