DESCRIÇÃO DE IMAGEM: dentro de um prato, há palavras recortadas em pequenos papeis. Também há uma colher que destaca palavras como diferente, trabalho e viver.
DESCRIÇÃO DE IMAGEM: dentro de um prato, há palavras recortadas em pequenos papeis. Também há uma colher que destaca palavras como diferente, trabalho e viver.

Por Ciça Melo

Depois do último post, onde conto que me calei diante das dúvidas do meu filho Daniel, recebi muitos emails e comentários.  “Vocês não conversaram mais sobre este assunto?” era a pergunta mais frequente. Houve críticas ao meu silêncio. Mas gostaria de lembrar que aqui no ParaTodos falamos muito sobre aquilo que acreditamos. Sobre nossos valores, crenças, expectativas e aspirações. Porém, muitas vezes, nos expomos e falamos de nossas vidas. E isto é realidade! Nesta hora, não podemos escrever sobre o que deveríamos ou gostaríamos de ter feito. Temos que falar sobre o que aconteceu ou acontece de fato. Principalmente, para as outras centenas de mães que nos leem não acharem que estão sozinhas.

Entretanto, não foram só críticas. Pelo contrário. Houve muitas manifestações de carinho e apoio. Gente que passou por situação parecida e não soube o que dizer. Mães que ficaram sem voz ao ter que responder perguntas que ainda não têm respostas. Obrigada por cada um dos comentários, posts e emails. Inclusive, foi muito importante para nós já que um dos nossos objetivos é provocar reflexões. Só quando paramos pra rever nossas certezas é que começamos um verdadeiro processo de mudança. E este processo de mudança me contamina também. Cada palavra dos nossos leitores agrega em mim algum pensamento, que pode provocar mudanças. Numa próxima encruzilhada, eu posso não me calar.

Naquele dia, portanto, fiz o que foi possível. Ou seja: o que Daniel e eu demos conta. Depois, voltamos no assunto, sim. Tanto ele, quanto eu, nós já voltamos várias vezes ao tema. Semana passada, por exemplo,  conversamos novamente sobre o assunto:

– Quantos tipos de epilepsia existem? –  perguntou ele enquanto andávamos pela rua.

– Vamos procurar no Google.

Não satisfeito, ele questionou ainda:

– A que eu tenho qual é mesmo?”

– Epilepsia Benigna da Infância – respondi.

– Mãe, e o que ela faz? – retrucou.

Parei, pensei e disse:

– Nenhum medico me disse que o “seu nervoso” tem a ver com a epilepsia, mas eu acho que tem.

Ele pensou um pouco e, do alto dos seus 5 anos, falou:

– Eu também acho!.

Num outro dia, ele perguntou o que era pior, autismo ou epilepsia. O assunto apareceu porque ele havia escutado uma amiga me contar sobre uma crise nervosa da filha, que tem autismo. O mais bonito foi ver que os olhos dele brilharam ao descobrir que outra pessoa também tinha o tal “nervoso”. Incrível como buscamos semelhantes e, ao encontrá-los, nos sentimos mais iguais. Por mais que eu não goste desta palavra, o sentimento de pertencimento é necessário. Todos nós queremos fazer parte de um grupo.

Em seguida, neste mesmo dia, veio a pergunta se o que ele tinha era uma doença. Expliquei que não, disse que era uma condição, um jeito de funcionar. Falei ainda que cada um funciona de uma maneira. Pena que neste dia eu ainda não tinha publicado o post anterior e, assim, não havia recebido o comentário da educadora Vitória. Ela me sugeriu comparar a epilepsia a diabete e explicar que às vezes nosso corpo não produz algo que o organismo precisa. Assim, precisamos de um remédio para ajudar o corpo a funcionar melhor. Vitória ainda continuou: “assim, não se fala em doença, mas sim em saúde.” Isto fez muito sentido e já estou ansiosa para retomar o assunto quando ele me procurar novamente. Até porque eu sempre expliquei a ele que o remédio que ele toma é para ajudar a controlar o “nervoso”. Nome que ele mesmo deu aos seus momentos de crise!

Sei que as perguntas não vão parar tão cedo. Afinal, ele quer saber exatamente como é. E tem pressa para ter as respostas. E eu, como mãe, sou o caminho que ele mais conhece para chegar o mais perto da sua verdade.

5 comentários em “Vocês não falaram mais nada?

  1. fala pra ele que ele tem uma mãe maravilhosa, e que ele é um menino de muita sorte por ter o carinho, o apoio e todo o cuidado de pessoas tão especiais quanto ele. Adorei a questão da Vitoria. Maravilhosa a colocação, tudo é questão do ponto de vista, não?! bjs

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  2. Adorei a história da condição. Outro dia meus filhos também me perguntaram o que era autismo e eu não soube responder muito bem. Inclusive falaram em doença e eu disse que não era. Mas não soube explicar direito. Agora aprendi. Obrigada por mais esta lição.

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  3. Tô emocionada, Ciça, com vontade de abraçar você e, mais ainda, o Daniel! Eu acho que você está no caminho certo, a gente tem que ser sincera, mas as conversas têm que ser meio a conta-gotas, na medida que eles conseguem absorver, né? Um beijo!

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  4. Muito bom post, nao havia lido o primeiro e hoje li os dois. Sincero. Gostei tambem da forma de abordagem da educadora Vitoria, usarei essas palavras para explicar porque meu pequeno tem que tomar tiroxina todos os dias pela manha.

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  5. Fico feliz em poder usar minha experiência de mais de 30 anos em educação para continuar a ajudar aos pais a resolverem questões com seus filhos. Beijos em todas,
    Vitoria

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