Por Fabiana Ribeiro

IMAGEM: desenho em preto e branco de uma pessoa protegendo uma flor com  o guarda-chuva
IMAGEM: desenho em preto e branco de uma pessoa protegendo uma flor com o guarda-chuva

Num mundo que cobra cada vez mais que nossos filhos sejam independentes, como ensinar a solidariedade?  Hoje, queremos que nossos filhos se vistam, comam, durmam, tomem banho, escovem os dentes, brinquem, façam o dever de casa, arrumem a mochila, se virem. Tudo sozinhos, tudo por conta própria. Tão logo seja possível. Ontem, de preferência. E, se erram, se derrubam, se sujam, se quebram, se bagunçam, se não conseguem, cá estamos nós, muitas vezes, com braços abertos de broncas, críticas e impaciência. Será que não reparamos que crianças não são mini-adultos? Que crianças precisam de um tempo, de um tempo maior, de um tempo para aprender? E que isso pode levar anos?

E as escolas não fogem muito disso, não. Também estimulam – muito e até muito precocemente – uma autonomia, uma independência, que é uma graça, mas como fica a cabecinha daquela criança que simplesmente não consegue? Porque essa, inevitavelmente, vai ficando pra trás. Há de se ter um cuidado para que esse excesso de autonomia não construa um cenário social cada vez mais e mais egoísta.

Se queremos um mundo mais inclusivo, devemos repensar a nossa forma de agir. Isso é fato. A começar por dentro de casa mesmo. Precisamos ser mais pacientes, ter menos pressa, ser mais tolerantes, ouvir mais e colocar mais a mão na massa. Precisamos (nos) ajudar mais, terceirizar menos. O que não significa fazer. Ajudar pode ter o sentido de ensinar, apoiar, conduzir, orientar, dar uma forcinha, ver até onde o outro pode ir, se envolver mais. É preciso que caia a ficha que nem toda criança de 4 anos consegue, por exemplo, colocar um short sozinha. Se nunca pararem para ensinar isso a ela. E que umas vão demorar mais do que as outras. E há ainda as que nunca conseguirão. 

A semente da solidariedade precisa ser plantada. Já. Em todos os lugares. Em casa, pra começar. Na escola, para continuar. Toda autonomia é válida: e todos, a despeito de qualquer tipo de deficiência, precisam buscar por isso. Mas solidariedade também se aprende. E isso deve ser estimulado. Precisamos todos ser mais gentis. Precisamos nos interessar pelo outro, nos ocupar com o outro, ser mais camaradas. Precisamos puxar cadeiras para os mais velhos, respeitar filas e assentos preferenciais, dar bom dia ao porteiro, perguntar se está tudo bem, sorrir mais. Gentileza gera gentileza. 

Ao desenvolver um olhar mais terno, vai ser mais fácil ajudar um amigo que vai mal em matemática ou emprestar o caderno para o colega que tem miopia e não enxerga o que está escrito no quadro.  Defender um colega mais tímido, pegar o lanche para o menor da turma, amarrar o cadarço de um colega que não consegue. Puxar o short do amigo que não aprendeu a se vestir só. Vai ser mais natural se importar com o outro. E o mundo carece de gente que se importe.

Se eu tivesse um desejo para 2014, era ser mais gentil. A começar com meus filhos. 

2 comentários em “Mais gentileza, por favor

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