Por Fabiana Ribeiro
Meu Vítor vai ser músico. Está decidido. Sua visão a menos aguçou a audição. Então, muitos já vislumbram nele um talento para a música. E me falam: investe nisso! Mas, se não der certo, a baixa visão também lhe aumentou o tato. Ora pode ser, então, massagista. Isso: músico ou massagista. Estou tranquila em relação ao futuro do meu filho. Durmo em paz.
Posso agora mesmo tirá-lo da escola que lhe permite abrir o campo das ideias e já investir numa escola de música. Trocar cadernos por pautas; livros, por flautas; e rabiscos por notas musicais. Se não fossem esses sábios observadores, nem desconfiaria que tinha em casa um Villa-Lobos. Tola. É tão óbvio isso: se enxerga pouco, ouve mais.
Há um pequeno detalhe: será que é isso que ele vai querer pra ele? Eu ia adorar, pois seria mais um no time dos músicos da família. Diria até que tem mais a ver com genética do que com deficiência. Mas os sábios observadores insistem: ali está o futuro. Não importa se tem dom, não importa o talento, tampouco o desejo ou a vontade. Repetem feito um mantra: menos visão, mais audição. E repetem isso feito um aviso: melhor se agarrar à música do que aos óleos de massagem. Ah, sim, porque a recomendação segue a lógica dos rótulos, a exemplo de tantos estereótipos que apenas espalham preconceitos por aí.
O que percebo, contudo, é que o futuro está nas mãos dele. E não nos olhos. É na escola, na vida, no caminhar, nas escolhas, na forma como ele lida com as dificuldade de sua própria condição, é que ele vai decidir se prefere música à matemática. Se quer ser veterinário, psicólogo, professor, eletricista, jornalista, bombeiro, surfista ou empresário. E aí está o grande papel da escola: abrir o mundo para a criança, sem planejar ou limitar o seu futuro. E dar a base para que, lá na frente, ela possa escolher o que vai ser quando crescer.
Em especial, quem está preso a estereótipos e baixas expectativas sabe o valor libertador da Educação. É ela quem nos livra das amarras da ignorância e dos limites impostos pelos ignorantes. Quem tem deficiência visual não precisa ser músico ou massagista. Assim como uma pessoa com nanismo não precisa trabalhar num circo. Nem tem de ser físico, matemático ou engenheiro o menino com superdotação. Da mesma forma que um jovem com Síndrome de Down não precisa ser excluído do mundo do trabalho.
Não, meu filho não vai ser músico. Ou vai. Não tenho a menor ideia. Meu filho vai ser o que ele quiser. Pronto, já não durmo mais em paz.  

5 comentários em “Meu filho vai ser músico. Ou não

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  2. Querida, do jeito que ele é extrovertido e falante, acho que ele vai ser… comunicador!! Nããão, por favor, não deixa, manda ele ser músico mesmo! Hahahahahaha. Ele vai ser o que ele quiser, talentos não faltam ao Vitinho!

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