DESCRIÇÃO DA IMAGEM:  A foto é um retrato de uma das cenas da peça. Os pais do adolescente estão sentados e o jovem está sentado no chão.
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: Foto da peça. Pai, mãe e filho estão em cena. No momento, o paí (de calça caqui e blusa verde de manga comprida) está falando com o filho (de casaco e tênis vermelhos, calça cinza) que, por sua vez, não olha para ele. A mãe está alheia à conversa.

Por Ciça Melo*

Prepare-se para fortes emoções.  Esse é o conselho a se dar a quem for assistir a peça  “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, dirigida por Moacyr Goes, que, a partir da relação de um menino com autismo e sua família, nos faz refletir sobre as diferenças e como lidamos com elas. E isso mesmo se você não estiver ligado diretamente, seja por uma filho ou algum  parente mais próximo, ao universo da inclusão. Mais uma recomendação: leve lenços porque você vai precisar.

É uma peça de 1h40, sem intervalo, que tem no elenco Silvia Buarque em brilhante atuação.  A montagem – baseada no livro do mesmo nome, do autor britânico Mark Haddon – consegue apresentar a questão do autismo “sem pieguice, sem um tom piedoso”, como declarou Goes. Ainda assim, emociona intensamente. Foi adaptada para o teatro por Simon Stephens e há rumores de que a produtora do Brad Pitt já tenha comprado os direitos para o cinema.

Tudo começa com o assassinato de um cachorro. Só que, nesta cena, está Christopher, um rapaz com autismo. Ele é imediatamente acusado de ter matado o cão. Acaba sendo levado à delegacia porque reagiu com agressividade quando o policial coloca as mãos nele. Enquanto o rapaz inicia a investigação para descobrir quem matou o animal, acaba esbarrando em questões da sua própria vida. Descobertas que vão mexendo com ele e com todos à sua volta. E, assim, a peça consegue mostrar diferentes reações daqueles que convivem com pessoas com autismo.peça2

Na relação direta com o menino – e talvez a mais óbvia -, estão pai e mãe. E como cada um lida com a questão do jovem: do apoio incondicional à momentos de cegueira/fuga. Diálogos e reflexões nos jogando na cara sonhos, frustrações, expectativas, desejos e, sim, erros dos ofícios da maternidade e da paternidade. Mas a encenação ainda mostra reações em outros âmbitos sociais, como com diretor de escola, padre, vizinha…  E é justamente aí que você não se vê mais num teatro, mas de frente pro espelho do banheiro.

É tudo tão realista que nos leva a pensar na nossa intolerância às diferenças, de uma forma geral. As diferenças maiores acabam, naturalmente, aparecendo mais. Entretanto, a nossa impaciência é a mesma. Não suportamos o outro que é diferente do que somos ou talvez do que queiramos ser e nem somos. Não compreendemos. Não alcançamos. Ficamos pra trás. Somos tantas vezes impotentes frente ao outro: não podemos viver sua vida, entrar na sua mente, impor nossos sonhos, colocar nossas opiniões, esconder nossas vergonhas. Não dá.

Em vez de impor nossas vontades, devíamos era aprender a tolerar as diferenças, frear nossos impulsos mais egocêntricos e, por fim, respeitar o outro. Se fizéssemos todos as nossas lições, não precisaríamos nem pensar em inclusão. Não haveria necessidade de peças, blogs, movimentos. Tolerar seria tão natural quanto respirar. Mas estamos longe, muito longe disso. Enquanto não chegamos lá, a hora é de tocar no assunto, discutir e refletir nas nossas ações. É hora de aplaudir de pé, com lágrimas e lenços, culpas e remorsos, sonhos e frustrações, conquistas e derrotas, esse estranho caso de um cachorro morto.

* A jornalista esteve na estreia da peça.

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