DESCRIÇÃO DA IMAGEM: Desenho de uma árvore em preto sobre fundo branco que tem os galhos formados por pessoas.
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: Desenho de uma árvore em preto sobre fundo branco que tem os galhos formados por pessoas.

Por Carla Codeço

Quando meu filho nasceu e fui comunicada de seu diagnóstico, tive vários medos. Muitos pensamentos me passaram pela cabeça e quase a totalidade deles, com o passar do tempo, foi perdendo a razão de ser. A maioria, no primeiro mês, já caiu por terra. Eram apenas pensamentos, ansiedades que nasceram de desconhecimento e preconceitos que eu tinha e nem me dava conta. Mas um deles se mostrou real. Este tinha razão de ser. E persiste até hoje.

O sentimento que tive foi de abandono. De uma hora pra outra, eu não me sentia mais parte do coletivo. Não pertencia mais. Não falo de pertencimento ao núcleo familiar, mas sim da comunidade mais ampla. Da sociedade de que eu e minha família fazíamos parte até então.

Mas de onde surgiu este medo? Da observação de que, de uma hora pra outra, a equipe médica, até então preparada e bem formada e assessorada, após o nascimento do meu filho se mostrou insegura e incapaz de lidar com o diagnóstico. Os médicos que servem pra todos passaram a não servir mais pra nós. Neste momento tive a certeza de que não estava mais “protegida pelo coletivo”, como um gnu que se protege no meio da sua manada.

Conforme os anos se passaram, pude vivenciar outras situações como esta, de exclusão. Matrícula negada em escola em função da deficiência; contratação compulsória de mediadora a fim de garantir a matrícula; soube até mesmo de parques de diversão que impedem o acesso de pessoas com deficiência. O que acontece? Não somos mais bem vindos nos serviços de nosso bairro? Não pertencemos mais à nossa comunidade?

Estas situações deixam claro pra mim que a dificuldade não está na deficiência em si. E sim no preconceito que está presente em cada pedacinho da nossa comunidade. Se há a rampa, não há problema em precisar de uma cadeira de rodas para se deslocar. Se há respeito e confiança, não será a deficiência intelectual que impedirá alguém de viver em plenitude.

É urgente mudar isso. É urgente construir um mundo onde todos façam parte. E a construção de um mundo melhor começa agora. Na nossa casa, na escola, na família, em cada gesto de cada um de nós. Mãos à obra!

3 comentários em “Eu pertenço, tu pertences, ele pertence e nós pertencemos

  1. Oi, Carla, tudo bem? Como me identifiquei com o seu texto! Me lembro até hoje, qdo eu entrei pro grupo, de vc ter falado dessa sensação de abandono e eu me identifiquei de cara! Aliás, ter entrado pro grupo me ajudou a aliviar um pouco essa sensação. E essa sensação ainda existe, não tanto qto antes, mas ainda existe. Existe na reunião de pais na escola, existe no parquinho, enfim, se nossos filhos são diferentes, nós automaticamente passamos a ser tb! Vc, assim como eu e tantas outras, já deve estar mais do q acostumada a ser considerada uma “mãe especial”. Sim, nós não somos apenas mães, nós somos “mães especiais”, segundo as mães comuns rsrs. Tb torço pra q isso mude. Bjs da Chris (mãe da Gigi)

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  2. Adorei o texto e a descrição do sentimento. Meu filho esta com 11 anos e atualmente este sentimento esta muito forte, o abandono, o não fazer parte do grupo de “mães” Também espero que essa diferença que fazem nos chamando de mães especiais acabe.
    No inicio este sentimento não era tão forte, já soube do diagnostico durante a gestação e sempre senti apoio dos profissionais. Embora é claro em alguns momentos achei que nós estavamos no caminho certo. Atualmente percebo que as pessoas precisam enxergar nossos filhos primeiramente como pessoas e não com o diagnostico,perceberem que a acessibilidade fisica e atitudinal não ´´e um favor

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  3. Parabéns Carla, pois mais este texto maravilhoso. A sensação de abandono em relação a sociedade , sempre existiu, com graus de intensidade distintos. Com o pasar do tempo aprendemos a nos defender contra ele, mas ainda fica uma sensação de desvantagem, que incomoda.
    Essa do parque de diversões é dose, pois existe lei estadual que fornece gratuidade para quem é deficiente.

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