tigre

Por Fabiana Ribeiro
Era uma vez um menino que resolveu mexer com o tigre do zoológico. Pulava, saltava, cutucava, corria de um lado para o outro em frente à jaula do felino. O garoto, de 11 anos, já havia, momentos antes, saído ileso do leão – e não é o leão o rei dos animais? Então, o que poderia dar errado dessa vez? Era apenas um tigre enjaulado contra um menino levado, teimoso e livre. Mas o tigre acompanhava seus movimentos, fitava cada passo do rapaz. Bicho que é, não encarou aquilo como uma brincadeira: era uma caça. E caçou. Por sorte, abocanhou somente o braço do menino. Então, o menino gritou.
Agora polícia e opinião pública discutem de quem é a culpa do acidente do garoto: do menino, do pai, do tigre ou do zoológico? Para ele, agora, nada disso importa mais. Achar culpados não vai aliviar a dor de acordar sem um dos braços. Voltar no tempo também não dá. Vai ter de chorar um pouco mais e encarar o desafio que é engrossar as estatísticas dos brasileiros com alguma deficiência no país. Dureza.
O menino não nasceu com deficiência. Teimosia, peraltice, falta de limites não têm nada a ver com deficiência. Tem mais a ver com criação, índole ou mesmo uma falta de noção de perigo. Mas tamanhas bravura e valentia poderão ser bastante úteis ao garoto. Pois o tigre lhe tirou um braço, mas não lhe arrancou a vida, tampouco, espero, a sua coragem. Pode não ser o fim do mundo. Em todo caso, serão tempos mais difíceis.
O menino mudou de lado do balcão não da noite para o dia, mas da casa para a rua. Num instante. Assim é a vida. Piscamos e, pronto, algo de bom ou de ruim nos acontece. Não será o primeiro nem o último a ter que enfrentar a vida de outra forma. Há uma lista sem fim de gente que, por acidente, negligência ou doença, passou de forma repentina a ter alguma deficiência. Vai ter que reaprender a se vestir, a comer, a andar pela rua, a brincar com os amigos, a lidar com a escola, a se encarar e tantas outras coisas mais. E que faça isso com a mesma coragem com que enfrentou os mais temidos dos animais.
Ei, menino, haverá outros tigres e leões no caminho. E você, com sua bravura, certamente encontrará forças para lidar com todos os selvagens que lhe aparecerem. Ah, sim, pois eles virão e nem sempre estarão atrás de jaulas. São os tigres do preconceito, são os leões da falta de acesso, são as onças do desrespeito a leis, são as antas da ignorância.
Que você continue forte, corajoso e valente. Mas nunca esqueça de ler as placas. Elas não estão ali à toa.

8 comentários em “O menino e o tigre

  1. Ai, nem me fale…
    Seja falta de limites, excesso de coragem do menino, negligência paterna ou peraltice nível 1000, eu não sei ao certo. E nem importa saber… o fato é que este menino descobriu de uma forma dolorosa e triste que todas as atitudes geram consequências e toda ação, uma reação .. bjs Camila Vaz

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  2. Muito bom o texto. Esse caso triste vai deixar uma marca profunda na vida do menino, nao só a falta do braço, mas os traumas desse acidente.
    O texto ressalta a questão da deficiência ampla (nascido ou por acidente) e para as dificuldades que virão (“outros tigres”, do preconceito, etc…). Além, é claro, da difculdade que terá de não poder contar com mais um dos braços. Serve de alerta para os pais qdo estão com a responsabilidade de cuidar dos filhos.
    Parabéns, Fabi!

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  3. Fabiana, que cronica perfeita. Que sensibilidade de mãe,!! Escreveu com coração, com verdade, mostrou a realidade e que após a dor a culpa fica menor. Que os cuidados, os ensinamentos, são essenciais para a vida
    de todos nós. Parabéns Fabiana.

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