140821_richarddawkinsPor Carlos Figueiredo*

Nas redes sociais, ainda reverberam discussões sobre a polêmica declaração do biólogo evolucionista Richard Dawkins. Na semana passada, o cientista recomendou, em uma discussão no twitter, o aborto no caso de uma gravidez de uma criança com síndrome de Down. “Seria imoral trazê-la ao mundo se você tivesse uma escolha.”, sentenciou. Imediatamente surgiram diversas linhas de discussão sobre o tema.

Interessante ver como diferentes visões deram origem a linhas de pensamento também distintas. Me senti na obrigação moral de entrar nesta discussão também, já que sou biólogo, evolucionista e pai de um menino que tem Síndrome de Down.
Entendo, embora discorde, a perspectiva do Dawkins. Não me espanta sua opinião ainda que a lamente profundamente. Ela reflete o que pensam muitas pessoas — de médicos, geneticistas e cientistas a cidadãos comuns. E, não bastasse o peso científico das palavras de Dawkins, a extrapolação para uma filosofia de pouca reflexão arrasta os desavisados. Ele se utiliza de uma conceituação pretensamente moral sobre “…o desejo de aumentar a soma de felicidade e reduzir o sofrimento…”. Nesta perspectiva, ele acredita que ”a decisão de deliberadamente dar à luz o bebê com Down, quando você tem a chance de abortar no começo da gravidez, pode realmente ser imoral do ponto de vista do próprio bem estar da criança”.

Assim, pressupõe sofrimento para a criança em gestação e para os pais. Nada mais longe da realidade. Porém, é o que pode transparecer a quem não vive o cotidiano com qualquer pessoa com deficiência. O medo do desconhecido é um motivador evolutivo poderoso e faz repelir o diferente. Em especial para aqueles que estudaram ciências biológicas e medicina no século XX, a perspectiva de alterações cromossômicas é terrível. Lembro dos livros que desumanizavam por completo as pessoas com alguma alteração. Certamente uma decorrência de uma perspectiva Neo-Darwinista que beira o Darwinismo Social.
Não sou filósofo de formação, mas, até onde sei, moral e ética derivam de costumes socialmente aceitos. Mesmo assim, e talvez principalmente por isso,  não basta que o aborto seja considerado legal, como é nos EUA, para que a decisão de ter ou não um bebê com Down se torne apenas um dilema pessoal. Seria um dilema pessoal, se a sociedade como um todo não julgasse o nascimento de uma criança com Down uma desgraça. A postura de Dawkins reforça o imaginário coletivo no sentido de considerar o aborto algo natural quando há possibilidade do nascimento de um bebê com síndrome de Down. Afinal, segundo esta visão, a pessoa com Down apenas traria sofrimento para si e para sua família. É preciso desmistificar a opinião geral de sofrimento. E isso as diversas associações e coletivos de parentes, amigos e pessoas com síndrome de Down têm feito de forma brilhante.

Meu papel de pai me compele a mostrar e demonstrar que ter um filho com Down está longe de ser uma desgraça. Aliás, com nenhuma “deficiência” seria. É apenas um detalhe. Não se trata de um detalhe desprezível, mas é infinitamente menos importante do que ter um filho. Filhos são responsabilidades e preocupações para sempre. Tenham eles alguma condição de deficiência ou se tornem altos executivos ou cientistas brilhantes. As preocupações e orgulhos não são exatamente as mesmas, entretanto, estão lá, e na mesma intensidade.

Como disse um amigo, faltou a Dawkins algum estudo na área de humanas. E eu complemento: faltou também a experiência prática de convivência com alguém com Down. Não por ser nenhum tipo de experiência iluminadora, mas apenas por espantar fantasmas. E, hoje em dia, convenhamos, fantasmas não assustam mais ninguém.

* Carlos Figueiredo é biólogo, professor e pai do Rafael e da Joana. O texto, na íntegra, pode ser lido em 

http://carlosaugustofigueiredo.tumblr.com/post/95827636303/nesta-ultima-quinta-feira-o-eminente-biologo

7 comentários em “Uma resposta a Richard Dawkins

  1. Poderia escrever mil coisas. Mas, e tão somente PARABÉNS!!!!!!!! Tbm tenho uma filha com SD. O trabalho é grande pq a quero independente e isso é um detalhe como VC disse, não desprezível pq nossas vidas mudam por causa de um filho e a rotina é alterada mais ainda por causa das terapias e das atenções diferenciadas. Mas nada como o amor e ver o desenvolvendo dela. Parabéns pela escolha das palavras e de conseguir responder a altura, de acordo com a visão evolucionista dela. Triste é ele q não teve o prazer de conviver com uma pessoa q necessita de uma atenção diferenciada e como isso nos torna melhores.

    Curtir

  2. Não vejo a ciência como desconectada dos valores de sua época ou mesmo dos valores que permeiam os homens e mulheres de modo atemporal. O Dawkins é um cientista burro. E como tal, imagina o nosso valor medido pelo sucesso reprodutivo, em algum nível, ou imagina uma moral que se espelha nos genes. Isso não faz nenhum sentido e, como não faz nenhum sentido, não merece resposta nesse nível. A se tomar por isso, poderíamos usar a mesma lógica para querer somente filhos loiros de olhos azuis com KIs altíssimos porque eles fecundariam mais fêmeas ou mesmo poderíamos passar a considerar que a vida de mulheres que não tiveram filhos por opção ou impossibilidade seria uma vida inútil etc. Poderíamos acreditar que, em época de escassez ou de guerra somente filhos homens fossem benvindos e que deveríamos abortar meninas porque elas seriam menos úteis e aí por diante, entrando cada vez mais em um mundo sem sentido da falta de referências éticas. Tudo isso é absolutamente tolo e por isso tentar enumerar as vantagens que a humanidade ganha com o nascimento dessas crianças maravilhosas acaba sendo falar a mesma língua torta do Dawkins. Não faz sentido. A humanidade é simplesmente o que a compõe! As pessoas não precisão ter um valor medido, mensurável, explícito. Elas são valiosas por serem pessoas. Reproduzir mais não é vantagem para a humanidade nem para as pessoas. Essa visão produtivista é uma praga e ela sim deveria ser exterminada…

    Lembre-se, não há lógica alguma na argumentação do Dawkins. Ele trabalha no mundo dos valores e os valores dele não são grande coisa. Se tentar falar a linguagem dele, a do pragmatismo biológico, vai cair na mesma cilada.

    Ciência não foi feita para determinar valores ou moral… A ciência ou mesmo a filosofia não podem considerar a empatia e as forças das relações interpessoais em sua métrica. Nós podemos, individualmente, e o seu texto prova isso. Ele usa o amor, o maior dos valores e o mais impossível de ser quantificado.

    Curtir

  3. Li em algum lugar, mas não me lembro onde, que admirar o Belo não significa desprezar o que não é belo. Também é belo: o idoso, o saudável, o feliz, assim como o homem ativo em todas as etapas de sua vida. Há beleza na criança brincando, na obra de arte e mais ainda na natureza. A sabedoria é bela. E é óbvio que não há beleza na doença, na destruição, na fome, na tristeza, na morte, na fome e na destruição. A qualidade do Belo está estampada por aí e se manifesta na vida , na saúde, na alegria e no amor…aqui a pausa… essa é a palavra CHAVE: A-M-O-R.
    Admirar o belo tem outra conotação se tiver amor no olhar. Seu discurso é belo e teu sentimento de amor transcende.
    Eu fico muito feliz por passar pela vida e conhecer pessoas que dispõem dessa CHAVE nos olhos. Amor pelo filho, pelo companheiro/a, pelos pais, pelos amigos, pelo próximo, pelos animais, pela vida.
    Esse A-M-O-R que é replicado vai formar pessoas diferenciadas. Essa diferença deveria ser apreciada e reverenciada.
    Daqui envio a vocês meus carinhosos beijos. Andreia*

    Curtir

  4. Parabéns pelo texto, Carlos Figueiredo.
    O seu texto representa a minha forma de pensar e, diante disto, reforço o já sinalizado, pois na minha opinião ele tem pouco ou nunca teve contato com alguém com SD.
    Não preciso fazer qualquer tipo de pesquisa para chegar a tal conclusão. Aliás, se descobrisse que o Dawkins sempre teve contato com pessoas com SD, concluiria que o mesmo não é humano. Não faria sentido…
    Adiciono, ainda, que as palavras por ele utilizadas me fazem lembrar a idade média, mais precisamente a era das Trevas, quando o desconhecido ou diferente era repugnado e extirpado.
    Nesse sentido, gostaria mesmo é que seres como ele não fossem levados tanto em consideração. A meu sentir, eles querem chamar a atenção justamente com o intuito de suprir as suas próprias carências.
    Na realidade (e o que é mais importante), temos mesmo que compreender e aprender com esses anjos disfarçados, que, com toda certeza, possuem com uma das suas missões dar mais pureza e amor a todos nós.

    É no que acredito.

    Abs a todos,

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s