FOTO_escolhaPor Carla Codeço

Pois é, a vida tem dessas coisas: quando achamos que estamos no controle de tudo, é exatamente quando somos chamados a relembrar que não. Que o pouco controle que temos é ilusório. Vivemos como que numa montanha russa. Não sabemos se no próximo instante nos espera uma guinada ou uma queda súbita. Puro sabor de aventura. Afinal, que graça teria viver, se tudo fosse programado e já soubéssemos de antemão o que está por vir?

Vivendo intensamente constatei que estou grávida. Mais um presente para dar ainda mais sabor à vida. Uma nova gestação num momento de vida em que vinha me dedicando muito aos outros e tão pouco a mim mesma. Priorizando os filhos, o marido, o trabalho, escrever, os grupos de discussão sobre síndrome de Down. Recebi o impacto da iminente mudança brusca. Parada obrigatória. Parada para me concentrar em mim mesma.

E mergulhei com tudo nesta nova aventura. Quando começo a vivenciar a nova experiência, algumas interações com outras pessoas me chamam atenção. Comentários ressaltando a minha co-ra-gem. Mas, hein, que coragem? Cheguei a ouvir numa conversa a referência à fulana que teve seu primeiro filho com Down e, mesmo assim, teve a coragem de ter mais um. “Corajosa ela, né?” Confesso que demorei a entender. Depois da breve explicação, fiquei com a pulga atrás da orelha, pensando, pensando… Então, sou corajosa por estar grávida, apesar, friso, apesar de já ser mãe de uma criança com deficiência. É essa a definição para muitas pessoas de mãe-coragem.

Porém, seria coragem mesmo? Fez-me pensar nessa ilusão do controle absoluto novamente. Afinal, filho é filho. A gente não escolhe. Ou melhor: não deveria escolher. Há os que explicam: “Mas ela está arriscando. E se nascer outro filho com deficiência? É corajosa por se arriscar a ter dois problemas!” Hã? Problema?! Mas, pense bem, se você tem um filho e ele, em consequência de algum acidente ou sequela de alguma doença, passa a ter alguma deficiência? Ele passa a ser menos filho? Deixa de ser SEU filho? Definitivamente, filho não é problema, tenha ou não tenha alguma deficiência.

Disso tudo, eu tiro uma coisa: sou corajosa. Não por ter mais um filho. Mas por lutar pelos direitos de cada um deles. Por enfrentar os preconceitos de um mundo de tantos iguais. Por não aceitar nenhuma forma de exclusão. Por não acatar estereótipos, estigmas, limites a nenhum deles. Por acreditar no potencial de cada um. Por simplesmente amar cada um dos meus filhos do jeito que são, a despeito do universo a meu redor.

É ilusão achar que temos tudo sobre controle. Pra não dizer que não temos como escolher nada, temos uma escolha a fazer. Escolher viver plenamente ou viver remoendo problemas criados por nós mesmos. Esta escolha, sim, é nossa. Viver é isso: aceitar os desafios e mergulhar de cabeça ou ficar remoendo como poderia ter sido, se nada disso tivesse acontecido a você. Eu fiz a minha. E, se achar que isso é sinal de coragem, tudo bem, meu bem.

15 comentários em “Eu fiz a minha escolha, e você?

  1. Parabéns Carla!
    Pelo artigo lindo que você escreveu, pela bela trajetória de luta, pela PESSOA que é, e pela notícia maravilhosa de mais um herdeiro!!
    Grande abraço
    Elisabeth/Giovanna

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sua história é parecida com a minha, tenho 3 filhos maravilhosos, Gabriel , com 16 Arthur com 8 e Amanda com 4, quando engravidei da minha princesa ouvi vários comentários inclusive de familiares do meu marido. Mais não deixei me abater seguir em frente hoje minha família, está completa não que não estivesse antes mais agora tenho uma menina, pois a casa era cheia de homens , parabéns pelo bebê, e curta bastante este momento tão especial.

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  3. Eu também fiz me escolha. Admirar imensamente a linda pessoa que você é Carlita. Você é corajosa sim, mas por dizer o que pensa e ter um lindo olhar pela vida. E o que você pensa vem carregado da sua doçura. bjs carinhosos

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  4. Isso mesmo! E na verdade não acho que somos “mães corajosas”, somos mulheres escolhidas especialmente pelos nossos filhos, somos Mães Honradas… Pq não é pra qualquer um, não é todo mundo que consegue ver quem realmente são as pessoas com alguma necessidade especial. Muito verdadeiro o que vc disse sobre “e se o seu filho sofrer um acidente, deixará de ser seu filho?” Excelente análise!
    Parabéns pelos seus presentes de Deus.

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  5. Carla,

    Como dizem na Costa Rica, Pura Vida!!!!!!!

    Que venha esse bebê, do jeitinho que vier – será amado por você, sua linda família e recebido com todo o carinho por todos nós, que dançamos com você nessa ciranda, que as vezes é roda gigante e as vezes montanha russa.

    Bendito o fruto de seu ventre!

    Com muito carinho
    Marta Gil

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  6. Amei! Amei! Amei!
    É isso ai! Filho é filho e amado sempre. Do jeitão que vier e com todas as alegrias e sufucos que qualquer mãe irá passar.
    Parabéns por mais um filhote.
    Beijãoooo. Vivi.

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  7. Primeiramente Parabéns Carla. Eu e minha esposa estamos em situação semelhante. Nosso lindo Miguel está com 1 ano e estamos tentando o nosso segundo filho(a). Não escolhemos os filhos eles nos escolhem! Adorei!!!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Carla querida, sempre muito bommm ler seus artigos!
    Admiro você por ser essa pessoa linda que é, dedicada e responsável com tudo que abraça.
    Filhos, sinceramente vejo o “quantos” teremos pelo “quanto” podemos, por que onde come um, comem dez, mas onde estuda um não estudam dez.
    E isso, pra nós, que nos preocupamos com boa saúde, boa educação, e principalmente nosso tempo, que queremos dar com qualidade a eles.
    Parabéns a nova vida, que tem o privilégio de te-la como mãe!
    Felicidades mil a essa familia linda que você constroi!

    Curtido por 1 pessoa

  9. Prezada Carla, em primeiro lugar parabéns por sua gravidez. Admirável sua posição. Eu, particularmente, não tenho um pingo da sua coragem, de me arriscar na loteria genética para um segundo filho. Eu, que já tenho um com uma síndrome rara, não gostaria de ter outro deficiente. Sei que não tenho o controle de tudo e que qualquer filho “normal” pode adoecer ou virar deficiente. Disso ninguém está a salvo. Porém, existe FIV para diminuir os riscos, a ciência pode ajudar – repito, não temos o controle- mas pode-se diminuir o percentual de risco. Não sei se meu filho vai falar um dia, se vai ter controle do esfincter antes da adolescência, se vai poder trabalhar… sim, a vida tem mistérios, mas também tem prognósticos difíceis… que abalam uma família em termos financeiros e psicológicos e que geram muito stress.Eu ainda não tenho estrutura mental necessária pra tudo isso e tenho sofrido bastante. Espero que Deus me ajude a evoluir. Felicidades.

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