Por Ciça Melo
A gente finge que cobre os peitos, a gente finge que inclui.
A gente finge que aceita a Gloria Maria cantando sobre raça negra, apesar dos cabelos totalmente alisados.
foto
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: na foto, pessoas com deficiência, em cadeiras de rodas, e sem deficiência desfilam numa ala de uma escola de samba.

A gente finge que aceita a diversidade. Na avenida, havia alas com pessoas com questões físicas e intelectuais desfilando com seus pares e ímpares. Nos bastidores, profissionais, das mais diferentes áreas, com alguma deficiência física trabalhando.

A gente finge que o dinheiro que financia nossas escolas é patrocínio lícito. E que somente o dinheiro da Nova Guiné não deveria ser aceito. É muita hipocrisia! Mas afinal carnaval é isto: a possibilidade de fingir ser algo que você não é.  Então, vamos lá vamos fingir que somos honestos!
“Eu sou Madiba, eu sou a voz da igualdade”, cantamos todos quando a Imperatriz passou.
No final, vamos fingir ser japoneses, balançar as pernas, fotografar, filmar, fotografar, filmar e não entender nada do que se passa por aqui.
Não precisamos ser negros para lutar contra o racismo, assim como não precisamos ter deficiência para lutar pelos direitos das pessoas com deficiência. Mas não podemos  falar e agir de forma contrária. Gritar pelo patrocínio da Beija-flor e aceitar o dinheiro da contravenção..
Ouvi um dizer “adoro o tema desta escola!”. O que isso significa? Não sou racista? Ou, apenas, quero estar na moda? Em outro momento, escutei: “o prefeito tem uma filha “especial”, mas você ia gostar de conhecê-lo. Ele arrumou um emprego para ela na prefeitura e ela fica por lá fazendo as coisinhas”, num tom depreciativo, como se esta foi a sua única possibilidade.
Vamos fazer valer o samba da Imperatriz. Vamos à luta pelos direitos, uma banana ao preconceito ou vamos cantar com a Portela surreal. Sim, sejamos justos.
Sim, é verdade, na avenida tinha pessoas com deficiência, tinha negros e brancos, tinha velhos e novos, trabalhadores, estudantes, turistas e cariocas, paulistas, baianos, gaúchos, tinha ricos e pobres. Todo o mundo estava lá. Mas a hipocrisia também passou pelo maior show da Terra. Ela está dentro de nós. Infelizmente.

Um comentário em “Hipocrisia

  1. É Infelizmente um pouco de hipocrisia está dentro de nós. Às vezes é necessária para nossa sobrevivência ! De outro lado está o “sinceridício” !
    O difícil é ter a sabedoria de fazer valer o lado mais correto para uma determinada situação !
    Para termos o privilégio de ter este deslumbrante desfile das Escola de Samba que realmente considero o maior espetáculo da Terra ainda precisamos desta hipocrisia sim ! Melhor ainda se tivermos consciência disto !

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