Por Fabiana Ribeiro

Dia desses, ouvi de uma amiga que ela apoia a campanha #emdefesadetodasasfamilias. Disse que fica encantada com o movimento e que está disposta a levantar a bandeira de todos que se sentem marginalizados por fazerem parte de uma família fora do padrão papai-mamãe-filhinho. Acha um absurdo todo o preconceito sofrido pelos gays, pelas mães solteiras, pelos pais que assumem seus filhos e por todos aqueles que fazem parte de um formato pouco convencional de família. Afirmou contundentemente que também está mostrando a seu filho que ele também precisa apoiar a causa. E, por isso, ela posta, ela curte, ela compartilha. É, diz ela, uma questão de Justiça, Amor, Moral e Humanidade.

E você? Você também se identificou pela causa? Você também apoia o movimento deles?

Pois eu, não. Eu não apoio a causa deles. Eu não posto foto em Face ou divulgo imagens porque apoio a causa de Fulano ou de Beltrano. Eu não dou uma forcinha curtindo uma foto, nem ajudo a divulgar uma campanha com meus amigos. Eu não apoio porque ao apoiar a causa de gays, mães solteiras, pais divorciados etc., etc. etc., a mensagem que passo é aquela que mais quero negar: o racha entre “eu” e “eles”. E eu acredito em “nós”.

Essa campanha #emdefesadetodasasfamílias é minha também. Não é dos gays, nem das mães solteiras. É de todo mundo, ora. Porque todo mundo precisa de um mundo mais tolerante, com menos réus e juízes. E, pensando assim, eu curto, divulgo, compartilho, escrevo. Essa campanha é minha também, porque eu também sonho em ver um mundo que aceite todas as famílias, mesmo não sendo gay, mãe solteira ou qualquer coisa que coloque minha família na categoria de minoria. Eu quero que meus filhos saibam que o amor é o ingrediente mais básico que uma família pode ter, seja lá como ela for.

Essa forma de pensar – “eu” e “eles” – é a que também mais vemos quando o assunto é deficiência. Não podemos mais apoiar a ideia de que crianças com deficiência precisam ter livre acesso à escola. Apoiar, não. Ajudar, muito menos. Precisamos entender, paratodosempreamém, que a diversidade em qualquer lugar do mundo faz bem para todo mundo. Seja você como for. É uma questão, portanto, que diz respeito a todos. Deveria ser, portanto, uma preocupação de todos.

Fazendo parte de uma causa, você – perfeito ou imperfeito – vai às ruas para defender os direitos das pessoas com deficiência. Vai se mobilizar para que, mesmo sendo loiro de olhos azuis, o racismo seja extinto de nossas relações. Vai ajudar a organizar movimentos, ainda que tenha um par de lindas pernas torneadas na Bodytech, para aumentar a acessibilidade de cadeirantes na cidade. É todo mundo no mesmo saco.

Enquanto apoiarmos a causa dos amigos, mesmo sendo sobre aquilo que acreditamos e até apregoamos nos bares da vida e na timeline do Facebook, ficamos de espectadores da causa, não de agentes. Muito menos de agente transformadores. Ficamos bem na foto, posamos de modernos, temos assunto para a praia, somos os polêmicos, bancamos o cool. Só que, para mudar o mundo, ou mesmo aquela  pequena comunidade da qual fazemos parte, não temos que apoiar movimentos deles: temos de fazer parte deles. Juntos e misturados. De verdade.

PS: Radicalismos e romantismos à parte, mesmo aquele que apoia por apoiar, com boa intenção ou apenas pra ser o cara bacana do bar, também obviamente está contribuindo pelo bem de uma campanha em questão. Faz pressão e ajuda a formar a opinião. E até mesmo a levar um ou outro para entrar de verdade na causa, seja ela qual for.

4 comentários em “Juntos e misturados

  1. Acredito que diante da impossibilidade de se fazer algo maior para que tenhamos uma humanidade mais humana e menos segregadora, fazer parte de uma caminhada pelo tema X ou Y, por exemplo, seja uma forma válida de se atrair visibilidade para uma causa ignorada, não só por entidades e autoridades, mas também pela grande população. Temos potencial para estarmos juntos e misturados, mas a realidade é que a grande maioria está (cada vez mais) misturada e segregada.

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