Por Fabiana Ribeiro
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Descrição da imagem: Grupo de jovens atores no palco cada um segurando um carta para a manifestação representada na peça.
Quatro jovens — uma patricinha, uma certinha filha de pais liberais, um insatisfeito com a escolha profissional e outro que se vê angustiado pela pressão dos pais — resolvem se juntar a um protesto. Mesmo sem sequer saberem do que se tratava o movimento. Com suas demandas em cartazes, como Wi-fi livre e mais tolerância dos pobres com os ricos, o quarteto se vê como os únicos a participar da manifestação solitária de Guilherme, um jovem com síndrome de Down que deseja ser livre. Esse é o enredo de Bronca de quê? — peça que fica, em cartaz, no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, até início de agosto. Sob a direção de Ernesto Piccolo, a peça é voltada especialmente para o público jovem e toca em temas como inclusão, sexualidade, diferenças e família. No último domingo, o Paratodos organizou um grupo, de cerca de 40 pessoas, para assistir ao espetáculo.
Com texto simples e linguagem bastante acessível ao público jovem, a peça nos joga no colo estereótipos que carregamos o tempo todo conosco (e dos quais devemos nos livrar urgentemente). E o maior estereótipo é justamente desconstruído com Guilherme. Se a expectativa era de que Guilherme, por ter Síndrome de Down, fosse bobo, inconveniente e sem aptidões e maiores talentos, essa conjectura é frustrada. Para ele, os adjetivos se mostravam outros: irreverente, inteligente, bem articulado e totalmente consciente de seus direitos.
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Descrição da Imagem: Grupo de jovens, atores da peça no palco. Um deles aparece à frente de braços abertos para um abraço.

A peça é um convite ao debate. Toca na ferida da inclusão social. Pode se mostrar como início de uma conversa sobre diversidade, tolerância, amizade e solidão. E tantos outros temas que vem junto no pacote da deficiência. Enfim, pede uma pizza depois da sessão — o que o grupo organizado pelo Paratodos fez após o evento.

Há ainda uma desconstrução de estereótipos mais profunda do que a que vem pela ficção. E dessa vez não é Guilherme que nos afronta com nossas próprias convicções, mas o ator que o interpreta, Pedro Baião. Pedro, 24 anos, é prova viva que, sim, uma pessoa com deficiência pode ter uma profissão e se sair muito bem nela. Basta ter oportunidades. Oportunidades que começam, de pequeno, na escola. É uma escola inclusiva que permitirá que mais Pedros e Marias, seja lá como eles são, consigam ser aquilo que desejam ser.
Talvez assim, com mais diversidade nas escolas, com mais pessoas de todos jeitos chegando ao mercado de trabalho, nós não surpreendamos com a atuação de Pedro no tablado. Quem sabe nós não batamos palmas a cada aparição de Pedro no palco do teatro. Porque a salva de palmas a cada fim de cena sela o nosso preconceito. A cada “Uh, uh!” para Pedro fora de hora, estamos dizendo “nossa, ele consegue, bravo!”. E por que não conseguiria? Em vez disso, vamos valorizar o seu talento e não a sua síndrome. Enxergar a pessoa e não a sua deficiência.
Longa é a caminhada. Até lá, uma salva de palmas a Pedro. No fim do espetáculo. De pé. Porque, sim, sua atuação em todas as cenas merece homenagens.

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