Por Carla Codeço

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto traz o rosto de um homem com as mãos cruzadas sobre a boca e olhos arregalados.

Muitas pessoas reclamam quando são censuradas ao dizer uma palavra ou contar uma piada que ridiculariza minorias. Se alguém levanta a voz pedindo que se pense melhor e considere não usar um termo ou expressão desrespeitosa, logo é tachado de patrulha do politicamente correto. A maioria resiste a aceitar crítica e a deixar de usar algumas palavras ou fazer piadas que carregam em si o preconceito. Por que será?

Por que tanta dificuldade em aceitar que está sendo desagradável, se o outro se diz verdadeiramente ofendido? Que piada pode ter tanta recompensa social que justifique magoar alguém? A justificativa que mais ouço é que é uma bobagem, que o que vale é a intenção que se tem ao usar determinada palavra. Se é só uma brincadeira, por que se sentir ofendido? Há quem diga que é bobagem, que a patrulha do politicamente correto não tem razão de ser.

Eu insisto que não. Palavras carregam uma carga de significado. Conforme o uso que se faz delas este significado vai mudando e a palavra pode ficar pesada e passar a ser ofensiva. Algumas palavras usadas para se referir de forma depreciativa à pessoa com deficiência são usadas como xingamento para quem não tem deficiência. Doem-me. Sempre que ouço parece que escuto um sinal de alarme pééééé´ bem no meu ouvido. Mesmo quando uma palavra deste tipo é falada por uma pessoa querida, que distraidamente usa em forma de brincadeira. Mesmo assim dói.

folhetoCerta vez ouvi uma amiga usar a palavra retardadopara adjetivar outra pessoa durante uma conversa. Em forma de brincadeira, queria chamar o outro de lento, bobo. Escutei a campainha e segurei as pontas. Não queria corrigir. Ela convive com nossa família, com meu filho que tem síndrome de Down. Ela irá perceber e não tornará a usar esta palavra desta forma. Até que ouvi novamente. A mesma amiga e a mesma palavra. Então, tive de falar. Mas me senti extremamente constrangida em chamar sua atenção. Não quero parecer chata, mas, ao mesmo tempo, não quero ser machucada. Certas palavras ficam tão contaminadas pelo mau uso que deixa de ser possível utilizá-las de maneira leve novamente. Nem que a intenção seja uma brincadeira.

Dói escutar alguém usar uma palavra que descreve o modo mais lento como meu filho compreende acontecimentos, compreende textos ou interage, como um xingamento ou uma brincadeira para ridicularizar alguém.

Pode ser que algumas pessoas acreditem que o costume de usar características de uma pessoa com deficiência para ridicularizar outra não é nada demais, que não tem importância. Mas eu digo que tem. Tem a força de perpetuar discursos preconceituosos e de intolerância.

Sempre que deixarmos de rir de uma piada preconceituosa ou fizermos queixa do uso de algum termo de forma pejorativa estaremos interrompendo a manutenção deste costume. Quando passa a não ser aceito socialmente, perde força e não será perpetuado. Desta forma estamos inibindo o crescimento da intolerância. Eu, meu filho e muitas outras pessoas com deficiência agradecemos!

Um comentário em “Não é apenas uma palavra

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