bolo-aniversário
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: na foto, uma fatia de bolo confeitado, num prato branco, com vela acesa em cima
Por Fabiana Ribeiro
Festa de 8 anos do seu filho. Você resolve chamar todos os meninos da turma para uma festa de pijama. Nove garotos da sala. Todos, não. Todos menos um. Ah, todos-menos-um é quase igual a todos. E você é quase legal.
Mas você não contava com uma coisa. Vazou. Vazou no whatsapp da turma que vai ter uma festa. Poxa, que coisa, você tinha pedido discrição aos pais. Você segue com seus planos até que chega o grande dia. Lá está você, na escola, pra pegar os nove garotos que vão animar a sua noite. Nove garotos que não vão dormir nadica, que vão dar um trabalho do cão, que vão pedir suco de uva, quando só tem tem de caju, que vão querer Nescau, colo, travesseiro, água e televisão na hora do deitar. Que vão sujar o seu carpete de brigadeiro e ainda vão colocar o pé no sofá. É essa turma que entra na van. Do lado direito da fila indiana, lá está aquele menino esquisito que não fala, inerte no seu mundo, fora do contexto. Por sorte, nem viu a turma sair cantando, se distraiu com alguma coisa. “Melhor assim”, você pensa. Mas, você, já dentro do carro, vê a mãe do garoto que ficou pra trás. Não entende porque ela abraça o filho e discretamente chora. Nove não são dez. 
Então, você se pergunta em meio ao caos da van. “Por que mesmo não convidei aquele menino?” E você, claro, se lembra. Porque não se comporta como deveria. Porque ele não fala. Porque ele tem mediador. Porque ele pode babar nos brinquedos do aniversariante. Porque pode roubar o brinde antes do parabéns. Porque ele representa um risco para as demais crianças. Porque ele não brinca com as crianças, não interage com as crianças. Porque ninguém gosta dele. Porque ele tem Down ou autismo ou alguma dessas coisas complicadas. Porque, porque, porque… Você mal sabe o porquê, porque nunca se interessou. Nove não são dez. 
E você, se tiver o mínimo de sensibilidade, se dá conta da besteira que fez. E se arrepende. De não ter ligado para os pais do menino e dividido com eles o seu problema: vou dar uma festa de pijama para o meu filho, como podemos fazer para o seu filho participar? De não ter conversado com a escola para saber a opinião da professora sobre o garoto. De não ter sequer tentado. De ter feito um papelão na frente do seu próprio filho – que convive com o menino todos os dias e sabe, melhor do que você, incluir alguém na brincadeira. De ter cometido uma baita gafe pública, logo você que é cheia de valores morais tão consistentes. Nove não são dez. 
Então, você se pega pensando que, se a moda da exclusão pegar na turma, seu filho pode ser o próximo. Logo ele tão cheio de cachos e de bochechas rosadas, mas com certa intolerância a cumprir regras e combinados. “Coisa dessa geração”, você pondera. Lembra de filmes em que mães imploram para que seus filhos sejam convidados para as festas e garante que faria o mesmo pelo seu rebento. E, com coração apertado, pensa: “Nove não são dez”.   
Você, que era só simpatia quando ia à escola, nos últimos tempos se esconde. Você está com vergonha de encontrar aquela mãe. Tem medo de ela te olhar nos olhos e, apenas com os olhos, te lembrar que nove não são dez.
Nove não são dez, você bem entendeu.

95 comentários em “Nove não são dez

  1. Muitas pessoas me marcaram nesta postagem. Eu agradeco e queria que voces pensassem junto comigo. Textos inclusivos são muito delicados. Vamos lá. 1) O menino estuda junto com os outros 9, entao a escola é inclusiva. A mãe do aniversariante sabe que o filho tem um colega autista. E como assim ela faz uma festa e não convida um???Vamos esquecer que o menino é autista. E se fosse seu filho?? Você ficaria na porta do colégio abracada a seu filho chorando??? Seja honesta.Não. Você perguntaria a mãe o porque da discriminacão com seu filho. 2) E a professora?/ viu o carro saindo com todos e não disse nada?? que escola é esta??? 3) A mãe não tinha que perguntar nada. Ela só tinha que convidar. Como fez com todos os outros. Caberia a mãe do autista decidir o que fazer.4) Aí quando ela vê a mãe chorando, ela se arrepende, e tem um exame de consciencia fantastico. Conclusão….lenda moralista , onde mais uma vez a mãe do normal se arrepende, e é o centro das atencões. Nós nào queremos piedade com nossos filhos. Não queremos que eles sirvam de ideias para historinhas tipo não tinha sapatos, ele não tinha pés. Nossos filhos são iguaizinhos aos filhos de vocês. Me respondam,, sinceramente…Vocês ficariam chorando na porta da escola???Eu, com certeza, nã

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu acho que você é uma mãe forte. Meu filho não tem nenhuma necessidade especial, mas me chateio quando ele não é convidado pra algo que sei que todos os amigos dele vão. Me chateio quando EU não sou convidada pra qualquer reunião de qualquer coisa que minhas amigas vão. Mas não me acho nem um pouquinho no direito de ir perguntar o porquê do “não-convite”, porque as pessoas são livres pra convidar quem querem pra suas casas, suas vidas, suas festas. E percebo, tendo lidado com muitas situações de inclusão de portadores de necessidades especiais, que boa parte das pessoas não é inclusiva por natureza (com ninguém, nem os ditos “normais”) e se sente ou indiferente ou sem saber o que fazer em situações como essa.
      Gostei muito desse texto, como você bem disse não há que ter piedade, apenas generosidade no coração de saber realmente que 9 não são 10 em qualquer situação, seja o excluído criança ou adulto, especial ou não. A meu ver é mais uma questão de generosidade, mesmo, de grandeza de coração, não de “normalidade”. Incluir parece ser um dom especial de pessoas singularmente boas, infelizmente ainda não é cultura.

      Curtir

  2. E me parece que quanto mais informacoes temos mais ignorantes nos tornamos. Sim, nove nunca será dez e a exclusão sempre deixará a sua marca amarga, negativa e infeliz!

    Curtir

  3. Tenho a sorte de meu filho frequentar uma escola e conviver com pessoas que entendem exatamente que “nove não são dez”….e estamos sempre juntos, todos juntos e misturados, cada um com seu jeito, suas trapalhadas, sua travessuras, seu carinho…cada um é cada um. E juntos somos mais.

    Curtir

  4. puxa vida… senti na pele. Eu sempre fui essa 1 de 10 que ficou pra traz. “pq nao conversava com as outras crianças” – eu era muito tímida. hj choro baixinho no travesseiro qd sinto q meu filho pode ser tb…

    Curtir

      1. Eu tinha a certeza que ela ia parar o carro e reparar o erro….Não adianta nada ver que errou e continuar errando com a certeza…

        Curtir

    1. Porque é muito melhor nem convidar, se já fez assim, segue assim, seria como dar esmolas, se vc já excluiu a 1 semana atrás não venha agora encima da hora, sem planejamento nenhum da parte dela convidar e achar q ainda fez bem. Convidar para aliviar sua consciência? Pq é o q eu pensaria, e te digo por experiencia própria, é muito pior.

      Curtir

    2. Porque é muito melhor nem convidar, se já fez assim, segue assim, seria como dar esmolas, se vc já excluiu a 1 semana atrás não venha agora encima da hora, sem planejamento nenhum da parte dela convidar e achar q ainda fez bem. Convidar para aliviar sua consciência? Pq é o q eu pensaria, e te digo por experiencia própria, é muito pior.

      Curtir

  5. Como mãe de um especial. Hj com 31 anos de idade. Frenquenta !APAE. Que e o lugar ideal pra ele. Meu filho tem excelente aparência. Sua deficial mental não é tão visível pela aparência física. infelizmente o preconceito também está entre as famílias que tem filhos especiais! Cada deficiente tem suas limitações.e atitudes bem diferentes uns dos outros. Onde não são aceitos nem pelos que tem filhos com deficiência! A inclusão não pode se limitar apenas em mcolocar essas pessoas em uma escola regular! Inclusão social e eles ter o direito de frenquentar quaquer ambiente. Ter uma qualidade de vida melhor! Todos deveriam receber um benefício. As mães não podem trabalhar para cuidar deles. E normalmente os gastos com eles são alto. Só que as pessoas esquecem ou pensão que eles não tem gosto. Que não tem vaidade! Eles tem sim! Gostam de se vestir bem, comer bem! Coisa que não podem fazer devido por não ter um salário. Ter um salário tbm é inclusão sócia!!!

    Curtir

  6. Boa reflexão. Mas por que não ir agora e abrir seu coração e sua mente para a mãe desse menino? Ainda há tempo de mudar as coisas, sentar, conversar, abrir a mente e aprender. Certamente vai ser mais efetivo do que simplesmente escrever um texto de ‘mea-culpa’. O texto é fundamental para que outras pessoas também pensem nesse assunto mas eu acho que mais pode ser feito – o primeiro e mais importante passo você já deu. 🙂

    Curtir

  7. Realmente nove não é e nunca vai ser dez, mas a alegria de uma festa de crianças e, de pijamas não poderia ficar melhor ainda se somasse mais uma criança??? Aí que a humildade e a coragem aparece na pessoa de chegar na mãe da criança, pedir desculpas por qualquer motivo que for e convidar seu filho a participar da festa… Aposto que todas as crianças se divertiriam do mesmo jeito.
    Nove não são dez, mas onde se faz festa, sempre pode entrar mais um, não é!

    Curtir

  8. Se eu o fizesse, iria falar com a mãe e dizer a ela que sou humana, que perdoasse minha ignorancia, diria a ela e ao garoto que pessoas adultas são ignorantes e que do fundo do meu coração eu estava pedidndo perdão e queria mais que tudo que o filho dela participasse junto com os outros dessa noite do pijama.
    Se fosse menos insensível que eu não entenderia e todos nós ficariamos amigos.

    Curtir

  9. as proprias mães que tem filhos especiai., mas se os seus filhos não estiverem tanto debilitados., elas olham pra outras crianças aonde a deficiencia aparece mais., elas mesmos se excluem…Doltam um sorriso amarelo….e se excleum no seu smartphone de última geração…Festas então nem pensar…Ahhh sem contar o nivel $$$$$$$$$ que isso tb afasta….Coitadas…… mal sabem elas.. que todos as crianças são normais….e elas sim pura ignorancia…]

    Curtir

  10. Minha filha é super tímida, por isso não interage mto. Tenho muita pena qd vejo as fotos no face de festinhas de amigos da escola para as quais ela nao foi convidada por nao fazer parte do grupinho das “descoladas”. Ela obviamente fica chateada tb.

    Curtir

  11. Penso que as próprias mães tem preconceito, primeiro que compartilhar sempre faz bem, claro que tem aquelas pessoas que não estão nem ai. Mas pelo que já presenciei os especiais são inclusos e participam com muito prazer!!

    Curtir

  12. Pra mim que não vivo essa realidade Down, me parece tão absurdo isso… Parece que estão me contando mentiras de que existe esses viloes que fazem esse tipo de distinção. Juro que nos dias de hoje em pleno seculo XXI me soa como se as pessoas estivessem fazendo drama como se fosse um conto. Mas infelizmente eu sei que a realidade é essa. A mae de uma criança especial sabe das necessidades do seu filho, certamente se ele for a uma festinha e nao puder consumir lactose, essa mae vai levar a sua comidinha, se ele for dormir na casa do amiguinho e tier qqr dificuldade o responsavel vai facilitar.
    É triste ver os proprios pais ensiando aos filhos o tal do bulling e o tal do preconceito!

    Curtir

  13. A gente faz tanta coisa feia e se arrepende. Porém, como diz o ditado, o que está feito está feito. O melhor que podemos fazer para que não nos apareça uma urticária emocional, é enfrentar e conversar sobre o assunto com as pessoas interessadas. Quanto mais conversar sobre, mais clareia nossa mente e o assunto perde a força maligna que tem.

    Curtir

  14. Simplesmente de engasgar….dar um nó na garganta e agradecer por ter tido a oportunidade de ler um texto como esse que ficará sempre me ajudando a ser uma pessoa que sabe contar e entender que nove não são dez. Obrigada!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s