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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto, na contraluz, traz a silhueta de três crianças brincando livremente em um jardim: uma está dando uma estrela, enquanto as outras duas estão com braços estendidos e apenas sob um dos pés. Ao fundo, árvores.

Por Fernanda Niskier

Pedro queria brincar com Marina. Marina queria brincar com Pedro. Normal. Eles sempre brincaram quando menores: nossas famílias são amigas e os dois estudam na mesma escola, apenas em turmas diferentes. Ambos têm sete anos e são do segundo ano. Mas Pedro nunca tinha vindo na minha casa sem seus pais ou sem seu irmão mais velho. E ele vinha me cobrando essa visita há tempos, o que me fez querer providenciar logo esse encontro.

Pedro é loiro, de cabelos lindos e um sorriso desconcertante. Usa óculos. E tem Síndrome de Down – a mesma do filho de uma americana que escreveu uma carta, que viralizou, dizendo que a criança não havia sido convidada para uma festa.  Triste.

O programa lá em casa foi ótimo, uma delicia, todos adoraram. Não me deu mais trabalho do que qualquer outro amigo da Marina. Meu cuidado maior foi pedir para que o meu filho mais velho desse uma ajuda para eles brincarem, pois a Marina é MUITO agitada e às vezes não consegue parar para prestar atenção no que o Pedro – ou qualquer outra pessoa – fala. Fui dar uma olhada algumas vezes para ver o que estava acontecendo, de longe mesmo. Os 3 se resolviam sempre e Felipe foi mais do que suficiente para ajudar a Marina a se controlar.

Então, quando Pedro foi embora, fiquei pensando que não existe motivo para criança alguma ficar sozinha, não ir à casa de colegas, não ter companhia no recreio, não ter amigos. Não existe mesmo. Não fiz favor ao convidar o Pedro. Foi excelente e sei que seria ótimo com qualquer outra criança, mesmo que não houvesse, entre as famílias, um laço de amizade. Não convidei Pedro para ensinar moral e cívica para meus filhos. Tampouco quis ser legal ou bancar a boazinha. Convidei Pedro porque gostamos dele e de sua companhia. E, por isso, queríamos que ele viesse. E só. Mas, não posso negar, a visita me provocou essas reflexões.

Esse é um movimento muito simples que os pais poderiam fazer. Todo e qualquer pai. Com ou sem rótulo de inclusão. Talvez muitos dos pais de inclusão, tão acostumados às negativas da vida (das agruras na escola à exclusão do social), precisem saber que seus filhos, sim, são queridos. E talvez muito dos pais de não inclusão precisem saber que também depende de nós incluir. Basta olhar fora da janela. E essa fresca é ótima pra todo mundo.

Um comentário em “Uma visita nada especial

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