Por Luciana Calaza

Saí do Metrô na estação Saens Peña por volta das 20h e a confusão estava formada. Um rapaz de uns 20 anos havia quebrado a única máquina de autoatendimento do Riocard com um soco e as pessoas da fila, cerca de 15, estavam prestes a linchá-lo, acusando-o de vandalismo. Um homem gritou: “Você só sai daqui preso! Estou indo buscar um policial!”. A mão do rapaz tinha pequenos cortes que sangravam. Ele tentava se explicar, mas ninguém o ouvia. Nem eu, por causa da gritaria. Mas algo nele me chamou a atenção. Parecia uma criança acuada.

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: na foto, um homem branco de calça jeans e blusa desabotoada de manga verde musgo. Ele esta sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e com a cabeça abaixada sustentada pelas mãos. O fundo da foto é desfocado. 

“Você está indo para onde?”, perguntei em meio aos xingamentos. “Para a minha casa. Na Pavuna”. Meu plano de acompanhá-lo até sua casa era inconcebível, não dava para ir àquela hora para um lugar que eu não conhecia. Os seguranças do Metrô chegaram e o tiraram do meio daquela gente enfurecida. Resolvi tentar conversar com as pessoas.

“Pessoal, eu não conheço esse rapaz, mas percebo que ele tem alguma dificuldade, talvez um transtorno psicológico ou uma deficiência intelectual. Ele não fez por mal, tentem ficar calmos”. Ok, foi um diagnóstico feito em 5 minutos por uma jornalista metida a médica e as chances de eu estar errada eram de 99%. Mas, como mãe de um menino autista, acabei me tornando próxima de crianças e jovens com diferentes transtornos, e essa foi a minha intuição. Ouvi de volta de uma mulher:
“Se ele tivesse algum problema assim, estaria andando sozinho por aí?”.

Fiquei pensando na mãe desse rapaz, que decidiu que ele precisava ter independência – afinal, ela não vai viver para sempre -, mas certamente todos os dias fica aflita esperando-o chegar e rezando para que tenha dado tudo certo. Sim, ele poderia perfeitamente estar andando sozinho por aí, se as pessoas fossem mais empáticas.
Então, me dei conta de que um segurança havia levado o rapaz para dentro de uma cabine, enquanto o outro tentava acalmar os ânimos do povaréu. Corri apavorada para a cabine e bati na porta. O segurança saiu para falar comigo, o rapaz ficou lá dentro.
“Senhor, por favor, ele não é um vândalo. Que vândalo se machucaria para destruir algo? Ele teve um descontrole, talvez porque não conseguiu usar a máquina, tenho a impressão de que ele tem algum transtorno psicológico”, eu disse, quase implorando, e me preparando para fazer um discurso de que a deficiência nem sempre está na cara.
“Sim, senhora, eu também percebi logo. Estou tentando entrar em contato com a mãe dele para pedir para alguém vir buscá-lo. Fique tranquila, não vou deixar ninguém machucá-lo”, ele respondeu. Comecei a chorar na frente daquele segurança, agradeci por sua sensibilidade e fui embora.
Entendo que aqueles homens e mulheres eram trabalhadores, cansados após mais um dia de labuta, e que tenham ficado revoltados por terem suas expectativas de ir para casa o mais rápido possível frustradas. Talvez se eu não tivesse um filho com deficiência, não teria esse olhar… Mas será que faria parte daquela onda de intolerância? Não sei, mas eu peço: tentem sempre fazer um exercício de empatia, gente. É fácil, é só pensar assim: “E se fosse o meu filho?”.

21 comentários em “E se fosse o seu filho?

  1. O texto é muito bonito, muito válido, merecendo ampla divulgação. Acrescento dois pontos em comum: sensibilizei-me de maneira especial porque também eu sou pai de um rapaz (rapazinho, 7 anos) com autismo.

    E porque também eu já tive VÁRIAS vezes ganas de quebrar aquela maldita e ineficiente máquina do Rio Card. Digo-o sem brincadeira.

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  2. Graças a Deus,vc estava no local certo e na hora certa.
    Posso te chamar de ” anja”,por pouco podíamos ter tido mais uma notícia trágica.
    Que Deus te abençoe.
    Abraços

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  3. Coitado desse rapaz imagino o desespero dele diante de uma multidão de pessoas enfurecidas mas graças a Deus tudo deu certo havia ali um segurança com discernimento para entender que algo estava acontecendo com este jovem.fico aqui com o coração apertado imaginando o desespero dessa mãe quando recebeu o telefonema.

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  4. Cara, se você não consegue viver em sociedade sem atrapalhar o outro não viva, simples assim. O responsável dele que deveria pagar por isso, até por ser abandono de incapaz.

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    1. O mal da nossa sociedade atual não são as pessoas com autismo, ou down, ou cadeirantes, ou idosos, ou qualquer dita “normal” com uma dificuldade temporária, mas sim a intolerância, a falta de amor, empatia e respeito.

      Todos, todos mesmo (inclusive aqueles que têm pensamentos preconceituoso se amorais) têm o direto de viver dignamente e ser respeitado.

      Eu te pergunto: Ricardo Lhamas, “e se fosse SEU filho?”

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    2. Ricardo, é séria essa sua resposta? É sério esse seu pensamento? Não pode ser … vamos tente raciocinar antes de responder e adote a Empatia. Peço que leia novamente o texto e se não mudar seu pensamente, arrume um responsável que não o deixe de sair de casa, porque o incapaz é o Senhor!

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  5. Infelizmente as pessoas andam sem o olhar humano, sempre acham que todos querem só prejudicá-los de alguma forma,não percebem que pode ter algo mais além de certas atitudes que o outro ser humano possa ter.
    Graças a Deus td ocorreu bem.

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  6. Feliz por ler seu texto, Luciana Calaza! Principalmente por nos dar a chance de acreditar que nem tudo está perdido nessa sociedade de humanos cada vez menos humanos, acometida pela intolerância, impaciência e incapacidade de ver um ao outro como semelhante! Que bom que você estava ali, que bom que encontrou um guarda metroviário tão generoso e sensível quanto você! Feliz desse rapaz, que em um momento de descontrole, não se tornou vítima do descontrole social em que vivemos! Que bom! E obrigada por compartilhar sua experiência de humanidade!

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  7. Infelizmente hoje em dia a intolerância dos seres humanos é tremenda. As circunstâncias, o corre corre, a pressa…. Ninguém para pra pensar. No caso desse jovem, ele correu um grande risco de morrer, graças a Deus que a senhora e o segurança tiveram a sensibilidade de olhar c outros olhos. Foi Deus que os colocou naquele lugar e naquela hora. O mundo precisa de se colocar no lugar dos outros e vê se eles gostariam de ser tratados daquela maneira. Precisam de Deus no coração! É o fim dos tempos, q Deus tenha misericórdia de tds nós !

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  8. Belíssimo texto. Parabéns Luciana! Certamente, muitas pessoas que comentem atos inadequados são portadores de algum transtorno. E, infelizmente, essas pessoas são vítimas de incompreensão agressões e até linchamento. Por isso, em qualquer situação, é sempre bom pensar: e se fosse meu filho?

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  9. Pessoas como você salva vidas .. pois o ser humano tando em grupos pode pega alguém e espanca até a morte como teve reportagens na TV .. já vi espaçamento onde mtos que batia não sabia nem porque tava batendo… graças a deus chego 1 anjo depois mais um e o salvou …

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  10. Luciana, amei seu texto!
    Acredito que se a empatia fosse mais cultivada não estaríamos “no fundo do poço”…
    Vamos contribuir, através de nossos exemplos, para o ” empurrão no fundo” que tanto precisamos. Todos precisamos de mais esperança!!!!!!

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  11. Querida amiga Luciana,
    Trabalhamos o tempo todo para dar a tal “autonomia e independência” aos nossos filhos (mãe de autista – 8 anos). Como faremos? pessoas sem empatia, tolerância e paciência … não existe a “cara do autista” e “sim comportamento do autista”, muito bem lembrando por você que determinadas síndromes e transtornos não tem “cara”. Você não estava no metrô por acaso… rs. Linda matéria. Saudades

    Ana Claudia Cardoso

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