Texto de Ciça Melo

Foto de Mariana Perri

Carlão é mais alto que eu e deve ter seus 16, 17 anos. Conheço Carlão de sala de espera de terapeuta. Ou seja: conheço pouco, bem pouco. Mas, se está ali, deve ter lá suas razões, pensei eu. A não ser pelo dia que ele tirou a caneta da minha mão, o que me deixou bastante irritada, aliás, Carlão era tranquilo. Nossos encontros acontecem sem grandes intercorrências e sem maiores elucubrações minhas sobre o que nos une e desune à profissional do outro lado da porta.

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto feita de cima, em preto e branco, mostra uma criança debaixo d´água com borbulhas ao seu redor

Entre idas e vindas de Carlão, conheço Regina, sua mãe. Ou melhor, ouço Regina. E é com ela que também divido aquele mesmo espaço. Nossos olhares, cumplices de nossa angustia ou de pequenas alegrias diárias, já haviam se cruzado algumas vezes. E começamos a conversar. Primeiro, sobre o tempo. Em seguida, sobre escola. Até que ela fala do marido. Mas ali não era malhação: era a terapia do lado de cá da porta. Bem que podia ser no lado de lá.

Regina sentenciou: “Não saio mais na rua com meu marido e com Carlão”. Ela desistiu. Desistiu de falar uma, duas, três, mil vezes que o filho não é coitado. Não é de piedade que Carlão precisa, bradava ela. Eu entendo. É de amor sem compaixão. É de amor cheio de compreensão. É de amor sem vergonha. É de amor com coragem, é de amor sem medo.

O marido de Regina se encontra aos montes por aí. Tantos pais (e mães, ora), temendo pelo choro do filho, fazem suas vontades e estragam um pingo que, quando virar gente grande, vai dar ruim. Mas, impossível não reconhecer, essas vontades quando são feitas a torto e a direito com filhos com necessidades específicas podem ter efeitos ainda mais devastadores. Tiram autonomia, privam frustrações, impedem sofrimentos rotineiros. E não é isso tudo que também nos faz crescer?

Regina conta que, dia desses, ao irem a uma lanchonete, Carlão cismou de sentar numa cadeira específica. O pai se voltou para a moça que já estava sentada e disse: “você pode se levantar, veja bem, ele nasceu assim, não tem culpa, coitadinho”. E a moça, constrangida, cedeu o lugar. Regina sabe que seu filho não é coitadinho. Tem a exata noção das dificuldades que o filho precisa enfrentar para concluir, com êxito, tarefas ordinárias. E comemora cada uma delas. Regina sabe que Carlão é capaz. Ela também reconhece a destreza do filho em usar sua condição para conseguir o que quer (quem nunca?), ainda mais quando lhe vestem com a capa da pena. Ele pode ir além do que as crenças do pai. Ele pode ir além da crenças de qualquer um. Ele não precisa da cadeira de ninguém: ele terá a sua cadeira!⁠

Regina não pode desistir do marido. Porque ninguém pode desistir do Carlão.⁠⁠⁠⁠

Um comentário em “Não desistam do Carlão

  1. Se já é difícil “educar” nossos filhos em situações cotidianos , mais complicado ainda em situações adversas !!!!! Precisamos ensinar nossos filhos a ter sobretudo CORAGEM !
    Navegar é preciso , né ?

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