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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto mostra uma criança olhando de um funil vermelho

Foto de Mariana Perri

 Texto de Lais Fontenelle*

 

“Mãe, você vai morrer? E eu? Quando o papai vai morrer? Antes da gente? Quem morre primeiro: velho ou criança?” Essas perguntas invadiram a minha casa recentemente e têm sido endereçadas a mim pela minha filha de apenas 4 anos. Sabemos que é nessa fase que as crianças começam a se questionar sobre vida e morte, justiça e violência, mas também sobre as diferenças de cor, gênero e até sociais. E as respostas a esses questionamentos nem sempre são fáceis para as famílias, porque envolvem crenças e valores, posicionamento político e inclusive questões religiosas. Árdua tarefa de explicar a crianças pequenas que a única certeza que temos na vida é a morte.

As perguntas vão aparecendo e saber respondê-las com naturalidade pode ser um desafio da famílias, assim como para quem nos cerca. Outro dia recebemos em casa um amigo que chegou de saia. Assim que minha pequena o viu falou: “Por que você está de saia? Acho que nunca vi um homem de saia, sabe. Gostei muito de você ser misturadinho.” E nosso amigo respondeu, concretamente, como se deve ser com as crianças: “Porque eu gosto de saia e como estava sol peguei emprestado de uma amiga.” Legal, respondeu ela, acrescentando ser uma menina de cabelos curtos porque gosta mais assim. Simples.

Essa foi, digamos, fácil. Mais difícil ainda tem sido achar explicações para os últimos acontecimentos que sangraram as manchetes dos jornais de todo o mundo: 49 pessoas que estavam numa boate LGBT na Flórida foram mortas por um homem que entrou com muito ódio e um rifle e, em decorrência de seu ato, morreu também. Ou sobre o caso de Ítalo, de 10 anos, morto dentro de um carro por um tiro da PM em São Paulo. E ainda o caso do estupro de uma menina de 16 anos por 33 que filmaram o abuso naturalizando a cultura machista e do estupro. E tantos mais.

Minha filha de 4 anos não teve acesso a essas notícias, mas outras crianças de 10, 11, 12 anos – que estão nas redes sociais e ainda em processo de formação de valores e identidade – tiveram e também ficaram sem respostas, como nós adultos. E ficaram sem resposta porque os fatos não têm explicação plausível. Pergunto-me, então: como educar nossos filhos numa cultura de ódio, violência, intolerância e medo? Como passar valores mais humanos e solidários em tempos de intolerância? Como mostrar que a diversidade é nosso valor maior enquanto coletividade? E que nossas vidas e as dos outros merecem respeito?

É preciso recordar que nenhuma criança nasce violenta, intolerante, racista, homofóbica, altruísta ou sequer consumista. Esses são valores que elas vão adquirindo na relação com família, escola e sociedade em geral. A cultura imprime suas marcas em nossos filhos e cabe a nós educá-los para uma cultura mais amorosa, menos preconceituosa e violenta, para que possamos ver a ascensão do valor à vida – nossa e do próximo – e para que não tenhamos que responder com tanta frequência sobre os motivos injustificáveis para se abusar, matar ou discriminar. Tolerância, empatia e solidariedade devem ser, cada vez mais, temas incluídos nas escolas e dentro de nossas casas. Nossos filhos devem crescer com a noção de proteção dentro da coletividade que o recebe, para que não tenham medo do par e do entorno.

A dificuldade em aceitar o outro com suas escolhas, crenças, religiões, cor e sentimentos diversos não pode nunca ser justificativa para violência. Não deveríamos ter que explicar aos pequenos os motivos para não se matar plantas, animais, negros, mulheres ou homossexuais. Isso deveria estar dado. A tolerância se faz urgente nesses tempos sombrios que vivemos. Precisamos falar de igualdade e amor. Explicar que negros e brancos são iguais e têm os mesmos direitos e que mulheres não podem ser vítimas de qualquer tipo de assédio dos homens e que homens podem amar outros homens, assim como mulheres podem gostar de viver junto com outras mulheres. Tudo isso deveria ser bem mais fácil de se explicar a uma criança do que responder por que um homem matou 49 inocentes ou porque algumas pessoas não têm cobertores no frio.

Seguimos na esperança de que tempos menos injustos virão e que abusos e intolerâncias não prevalecerão. Educar é sem dúvida a chave da transformação de futuros cidadãos em seres mais fraternos, respeitosos e amorosos.

 

* O texto foi originalmente publicado no Portal Outras Palavras.

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