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FOTO: Mariana Perri.   DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a fotona contra-luz, em preto e branco, feita de baixo, mostra um menino de óculos, sem camisa, de bermuda e descalço, no alto de um trepa-trepa

Texto de Carla Codeço

Muita gente revela ter pena das pessoas com alguma deficiência. Confundem direitos com ajuda; respeito com “tadinho, ele é café com leite!”. Trocam a firmeza de uma bronca pela proteção máxima “não briga com ele não, coitado!”. E continuam, continuam. “Pobre daquela moça que não consegue entrar na igreja por estar numa cadeira de rodas?!” “Pobre do menino que não consegue acompanhar o conteúdo apresentado em sala de aula porque tem deficiência intelectual”. “E o Fulano que, para atravessar a rua, precisa que alguém o diga se o sinal está aberto ou fechado?! Ô, dó”. “É um problema isso de ser cego”. “E o Ciclano, tadinho, preso a uma cadeira de rodas?! Tristeza! Dá pena até de olhar, não?” Então, se sua piedade não virar misericórdia, ela vira invisibilidade: você vira o pescoço, atravessa a rua, finge que não vê, desvia o olhar.

Vamos parar e repensar nesta forma de ver o outro? Não é por ter deficiência que se é café-com-leite. Não é por ter deficiência que se deve receber carinho fora de hora. Não é por ter deficiência que devem fazer questão de dar bom dia ou deixar de chamar a atenção se for necessário. Não é por alguém ter deficiência que você precisa correr pra ajudar aquele que não pediu ajuda. Tente ver essa pessoa como o Zé da Esquina. Como mais um. Mais um que tem direitos. Assim como você. E, quando hesitar, lembre-se: o problema não está na pessoa com deficiência e sim fora. Nas atitudes, nos obstáculos, na falta de acessibilidade. Nas inúmeras barreiras ao longo da vida, dos nãos, da falta de gente que acredite.

Em vez de sentir pena ao ver uma pessoa na cadeira de rodas, querido arquiteto, não se esqueça de projetar no acesso principal do seu edifício uma bela rampa! Em vez de sentir pena do aluno que não consegue acompanhar o conteúdo dado em sala, professor, não se esqueça de pensar num formato que atenda a todos os estudantes. Mude atividades, troque deveres, mexa nas cadeiras, crie. Em vez de sentir pena porque o moço não atravessa a rua sozinho, político, em vez de pensar em projetos assistencialistas, colabore na construção de uma cidade acessível com sinais sonoros, rampas e pisos táteis.

Deixe seu olhar de pena de lado. Vamos juntos construir um mundo sem barreiras. Enquanto o sinal sonoro em frente à escola não for instalado, dá para aceitar a sua colaboração na hora de atravessar a rua. Enquanto a escola não providencia um material e formas alternativas de ensino, virá em boa hora sua colaboração na construção de uma escola mais inclusiva para todos. Enquanto as diferenças ainda forem vistas com pena, tem peso de ouro a sua participação na construção de uma sociedade mais tolerante e com respeito ao outro.

Troque sua carinha de pena por uma bela expressão de respeito ao outro. E de reconhecimento de que todo o indivíduo é um ser que tem direitos e deveres. Todos. Sem exceção.

Um comentário em “Você pode trocar a sua pena por respeito

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