Por Fabiana Ribeiro

Não sou muito de esporte. O clima das Olimpíadas não me contagiou a ponto de querer pegar um BRT e viajar até a Barra da Tijuca. Fui a um jogo de vôlei somente por insistência do marido: eu já estava até de malas prontas pra passear do outro lado da poça. Confesso, ok, ok, achei bacana e tudo o mais, mas minha distração era tanta que, dado momento, cheguei a pensar que a disputa já tinha acabado. Faltava um set ainda. Já no conforto do lar, cheguei a dormir enquanto Neymar fazia um gol. Na boa, eu queria mais era suar na maratona de Parenthood.

Nas Paralimpíadas, porém, sou outra pessoa. Irreconhecível. Pensei em levar a minha tropa para a tal Arena, onde passaríamos um, dois, três, quatro dias mergulhados em basquete, judô, futebol, natação, atletismo… Eu topava qualquer lugar: Engenhão, Deodoro, Copa, Lagoa e até a Barra. Eu estava terrível, sem limite. Também previ jogos em dias alternados. Que faltem aula. Que as terapeutas nos desculpem. Já nem se vê mais sinal daquela Netflixaholic das Olimpíadas. Eu descobri as categorias de Daniel Dias, Andre Brasil, Teresinha Guilhermina, Edênia Garcia. Eu estou impossível.

Descrição da imagem: na foto, quatro atletas paralímpicos de atletismo se abraçam. Um deles, que usa prótese de corrida, se cobre com a bandeira do Brasil.

Nesse momento de transformação pessoal, bateu aquela raivinha: por que diabos as Olimpíadas precisam ser antes das Paralimpíadas mesmo? Por que antes ou depois? Já teve gente que veio me falar que, por questão de logística e organização, essa junção, para funcionar de forma plena e eficiente, precisa acontecer separadamente. É impossível. Impossível? Não me venha falar em impossível em plena Paralimpíadas.

Era impossível voar. Aí, inventaram o avião. Era impossível pisar na Lua, agora já querem fazer turismo em Marte. Era impossível ter um telefone colado ao corpo, aí criaram o celular. Era impossível o Rio sediar as Olimpiadas. Deu no que deu – ou daqui a nove meses descobriremos melhor. Impossível é a maior barreira de todas e, desde que o homem é homem, vem derrubando cada uma delas. Juntar todo mundo, fazer das Olimpíadas uma torre de Babel aberta a todos, será apenas mais uma derrota do impossível para nós. Ou uma vitória do esporte.

Esses tantos atletas fazem, muitas vezes, o impossível, sim. Não, não tem super herói do pódio. Super herói não precisa de treino: nasce pronto. Essa turma não faz o impossível porque é difícil nadar quando não se tem braços ou jogar futebol quando se é cego. Esse não é o ponto – ainda que, naturalmente, limitações impliquem adaptações. Não vejo o impossível nas piscinas quando me deparo com um jovem veloz que se agarra a um pano para se segurar na borda. Não vejo o impossível quando vejo uma pessoa com nanismo pegar mais peso do que o grandão da academia. Não vejo o impossível quando olho um corredor com aquela prótese voar no chão. Não vejo o impossível quando um atleta usa o pé para acertar o alvo. Não, eu não vejo algo ali como “eles conseguem, veja”. Nem tampouco rebato a frase: “se eles conseguem, você consegue”. Até porque certamente você, assim como eu, não conseguiria. Sorry te desanimar, campeão.

O impossível não está em treinar e ir além dos limites de cada um. O que esses atletas fazem de impossível é não desistir quando tanta gente diz não. A rua, a escola, a família, o público, as Olimpíadas. Superar isso é que é impossível para muitos. Eu não seria capaz de tamanha perseverança. De tamanha exposição. De tamanho ativismo para se viver.

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