Por Fabiana Ribeiro*

As arquibancadas nas arenas denunciavam: somos todos paralímpicos. Torcidas vibrando, aplausos de apoio, novos ídolos surgindo. Mais de dois milhões de ingressos vendidos para as competições que traziam atletas de alto rendimento – não super-heróis e, muito menos, coitadinhos. Foram duas semanas em que a cidade apontou seus holofotes para a deficiência, tirando das sombras milhares de pessoas que precisam ser vistas e enxergadas para que, assim, tenham seus direitos reconhecidos de forma plena, genuína e permanente.

Nas redes sociais, houve um desfile de fotos cuja legenda poderia ser “eu também estava lá”, além de pedidos pela unificação das Olimpíadas à Paralimpíada e queixas contra emissoras da TV aberta que não transmitiram ao vivo provas nem as cerimônias de abertura e encerramento. Havia ainda muitos compartilhamentos de depoimentos, vídeos e histórias dos atletas. A deficiência entrou no debate e uma notícia sobre o tema parou no topo do trendind topics do Brasil – a que citava a capa com Cléo Pires e Paulo Vilhena na revista “Vogue”.

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DESCRIÇÃO DA FOTO: a imagem traz a chamada Escultura dos Agitos, símbolo dos Jogos Paralímpicos, na praia de Copacabana. Os Agitos são representados em três cores diferentes: vermelho, azul e verde. Na foto, o mascote das Paralimpíadas, o Tom, está à frente da escultura e sorrindo

As escolas – tão efusivas em dizer não à inclusão – se renderam e discutiram o tema com seus alunos. No centro, naturalmente, os professores de educação física jogaram bola de outra forma, promovendo vôlei sentado, basquete no skate, futebol com venda nos olhos. Vídeos foram apresentados. Grupos de estudantes passeavam pelas arenas uniformizados, sem falar do filme Paratodos, que foi exibido em salas de aula.

Sem dúvida, as pessoas com deficiência saem mais fortes. Amanhecem sendo reconhecidas, enxergadas. Já não cabe mais aquele desvio no olhar: sabemos o que o ser humano é capaz de fazer. Sem milagres, sem a nefasta história de superação, mas com respeito, direito, investimento, treinamento e, sim, muita força de vontade. Não se trata de milagre nadar quando não se tem braço ou jogar futebol quando se é cego. Esse não é o ponto – ainda que, naturalmente, limitações impliquem adaptações. Não há milagre na piscina quando um jovem veloz se agarra a um pano para se segurar na borda. Não há milagre quando um atleta usa o pé para acertar o alvo. O impossível não está em treinar e ir além dos limites de cada um. O que esses atletas fizeram foi não desistir quando tanta gente diz não. A rua, a escola, a família, o público, as Olimpíadas.

Só que acabou o show. Os atletas estão indo para casa; os palcos, desmontados; o metrô já começou a operar para todos; as crianças já começam a guardar o boneco Tom no armário. Agora, os mesmos holofotes se voltam para essa sociedade que vibrava com cada João sem perna que se levantava sozinho. Agora é hora de comprovarmos se o legado da Paralimpíada será apenas um álbum no Facebook. Depende de nós.

* artigo publicado no jornal O GLOBO em 23/09/2016

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