Por Carla Codeço

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto mostra a pintura feita nas laterais de um prédio. O desenho é de uma partida de basquete de cadeira de rodas.

Dia desses, reparei que nas partes laterais de um prédio no Centro do Rio estava sendo pintado um mural. Curiosa, passei a acompanhar, desde então, cada traço acrescido, dia após dia, com grande interesse, principalmente ao perceber que havia, na pintura, uma pessoa em cadeira de rodas.

Foram vários dias de expectativa até ver a cena completa: uma disputa de bola e uma iminente sesta. Era uma partida de basquete em cadeira de rodas. Que legal! Mais um holofote na deficiência. Pintura que precisa ser comemorada por nós que tanto lutamos para que as pessoas com deficiências sejam vistas, respeitadas. Agora o tema está exposto num grande mural, imenso, colorido, no final de uma grande avenida, onde todos os olhos acabam indo parar. Não dá pra ignorar, olhar pro lado ou fingir que não viu. A deficiência está ali. Protagonismo 1 x invisibilidade 0. E está representada de forma ativa, colorida, com movimento. Pra cima!

Fiquei satisfeita ao ver o painel completo. Todo dia ao sair do escritório batia os olhos nele. Admirava. Mas confesso que, aos poucos, aquele mesmo painel passou a me incomodar. Tinha alguma coisa ali que não estava certa. Então, reparei que todos os atletas foram representados segurando com firmeza suas respectivas cadeiras, como se ela fosse o freio de sua vida e não a maneira para se estar ali. Inclusive o atleta que, na cena, lança a bola para a sesta. Lançava com uma das mãos e a outra ali, agarrada na sua cadeira, como se ele precisasse segurar nela para não cair. A pintura ficou, na verdade, estática, ao contrário da cena que o artista tentou retratar: uma partida de basquete tem garra, suor e, acima de tudo, mãos livres para fazer a sesta. Ou para levantar o atleta que cai.

Pensei que podia ser coisa da minha cabeça. Baixa a ativista, cri-cri da inclusão outra vez, implicando com algum detalhe que não lhe desce na garganta…

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: na foto, jogador de basquete de cadeira de rodas se prepara para lançar a bola com uma das mãos.

Resolvi então relembrar as partidas reais através das inúmeras fotos de registro das partidas de basquete da Paralimpíada. E bingo! Não era só o meu olhar . Estava lá na foto. Os atletas e suas cadeiras são um só. Na performance atlética, a cadeira e seu corpo são de uma harmonia e sincronia impressionantes. Harmonia e não um forma  de passividade ou resignação.  Veja você mesmo.

Puxa, fiquei pensando… Um artista resolve registrar esta cena, dar destaque a uma disputa de bola feita por atletas em cadeiras de rodas. Certamente há nele a admiração por estes atletas, por seu desempenho em tantas modalidades de jogos olímpicos. Por outro lado, não conseguiu evitar de impregnar sua pintura com a cor do preconceito, da ideia preconcebida, pessoas com deficiência estão presas às suas cadeiras, tentam superar sua deficiência ao disputar nos Jogos Paralímpicos. Fazem bonito, apesar da deficiência – e não com ela.

Já está mais do que na hora de nos darmos conta, nós todos, de que a deficiência não é algo que deve ser superado. Ela é parte do todo que compõe aquele indivíduo. Que pode ser atleta, médico, professor, mecânico, artista, chef de cozinha, arquiteto, secretária, pode ser o que quiser. O céu é o limite! Isso, claro, desde que não criemos barreiras físicas ou atitudinais que dificultem sua inserção na sociedade; que não impossibilitem que circule pelas ruas numa boa em sua cadeira ou com sua bengala.

Estas barreiras sim é que devem ser superadas. Dia após dia.

 

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