Por Fabiana Ribeiro

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ILUSTRAÇÃO DE JOANA FIGUEIREDO. DESCRIÇÃO DA IMAGEM: no desenho uma mulher, desenhada a lápis, está deitada sendo levada por balões coloridos amarrados à sua cintura. Os balões voam alto, entre planetas e estrelas.

Você está numa casa de festas. Sozinho. Olha ao redor e vê, como é de se esperar, crianças brincando como se não houvesse amanhã. Todas, menos uma menina de, digamos, 7 anos. Ela está triste. Visivelmente triste. Brinca só, não se divertindo, mas como se estivesse apenas esperando a hora de seus pais entrarem pela porta principal e a levarem dali. Uns mexem com ela. Riem, apontam o dedo, a chamam de algo que você, de longe, notou tristeza. Você tem duas opções: chegar perto da criança ou ignorá-la. É aqui que você decide se esse texto é para você ou não.

Se resolver deixar a criança de lado, siga a vida adiante. Ela sempre esteve por perto mesmo, você que nunca a viu – ou a viu, sim. Mas repense, sempre há tempo para aprender a querer, ou melhor, buscar, construir, fazer um mundo mais justo. Se sua opção for tomar uma atitude, como conversar com a criança, chamar atenção dos monitores da casa de festa, ver o que seu filho pode fazer para ajudar, trocar os pés pelas mãos, você se importa. E se importar já é meio caminho andado.

Precisamos sair do conforto da nossa poltrona. Abandonar a indiferença que, muitas vezes, não nos move. Jogar fora aquele ar blasé do mundo cheio de interesses próprios. Temos, sim, de impedir (ou tentar, ao menos) que injustiças, do nosso ladinho, aconteçam. Essas injustiças cotidianas, como uma criança sozinha numa festa, não precisam da conivência do nosso silêncio. Pois, o ditado popular é sábio: quem cala consente.

Precisamos ser mais do que contra a exclusão. Nosso ativismo virtual é lindo. É claro que ajuda postarmos no Facebook nossas opiniões acerca do mundo. Como são fortes os vídeos: tem  a professora que grita com um aluno; tem a cena horrível dos tapas recebidos pelo jovem que não conseguia se firmar para a foto; tem o menino com deficiência que ajuda o motorista do ônibus a se livrar de bandidos. E, nas legendas, xingamentos contra injustos e advogados em defesa das pessoas com deficiência. Em tempos de redes sociais, somos formadores de opinão 24 horas por dia. Mas precisamos mais do que gritar no Facebook – ainda que gritar seja muito importante.

Não podemos saber que nossa escola nega matrícula a estudantes com deficiência e nos calarmos. Não podemos saber que nossa escola cobra a mais destes mesmos alunos. Não podemos saber que nossa escola não se preparou para lidar com a diversidade que recebe, a cada ano, em sala de aula. Esse silêncio nos torna cúmplices de um crime, hoje, previsto em lei.

Aquela criança ali na festa é somente um retrato da exclusão diária que é vida dela. Algumas são exclusões bem sutis. Como quando a professora a colocou para apitar todas as partidas da educação física, em vez, de tentar inseri-la na atividade. Como quando a mãe de uma colega de turma pediu seu exame de sangue detalhado para saber os reais danos de uma mordida na bochecha. Como quando a mãe da colega do balé diz que ela é maravilhosa e que dança muito bem, mesmo que ela, por vergonha, não tenha sequer subido no palco.

Não, não estou falando aqui de grandes injustiças de proporções catastróficas como a História já nos mostrou (ou estou?). Em geral, não vamos lidar com monstros encapuzados, genocidas ou dragões de sete cabeças. Estou falando de pequenas injustiças de proporções catastróficas para o mundo a redor.

Voltemos à menina da festa. O que vamos fazer mesmo?

2 comentários em “Omissão nossa do dia a dia

  1. Conheço esta história
    Esta é a história também de minha filha. Ela conhece muito bem a exclusão, infelizmente. E o local onde ela mais sofre isolamento é na escola. Mas a escola não reconhece o fato. nega e me hostiliza, porque denuncio o sofrimento de minha filha.
    Durante todo o ano, a escola permitiu o bullying contra ela. Esse bullying velado, que não se mostra em agressão física, mas em agressão moral, psicológica, que atormenta e traumatiza a alma infantil, principalmente. Agravado ainda pela condição especial da criança em sua vulnerabilidade.
    Ainda saber que as crianças agem assim, é triste. Mas saber que educadores se omitem diante do sofrimento do seu aluno é mais do que cruel, é horrendo.
    Os prejuízos que minha filha já sofreu por conta da exclusão são enormes. Não temos como lutar contra isso. Os educadores negam, não se tem a colaboração dos pais, de outros colegas e alunos da escola, de funcionários. Ocorre que todos agem na mesma sintonia: a indiferença, a omissão.
    Muito se fala no assunto, muitas campanhas e entrevistas têm ocorrido nos últimos tempos.
    Porém essas ideias, a mudança de comportamento ainda não atingiu o coração das pessoas. A maioria somente se importa, toma alguma atitude quando se trata de seu filho. \O filho dos outros não importa.
    É duro, cruel escrever isso. Mas, é a verdade. E precisamos ter consciência bem clara da realidade que vivemos.
    De nada adianta “dourar a pílula” como se dizia.
    Minha filha desenvolveu neste ano uma fobia escolar mais intensa. Teve muitas faltas por não suportar a rua rotina de exclusão escolar.
    E agora está na iminência de ser reprovada, punida mais ainda além da punição do isolamento de que foi vítima por todo o ano.
    As professoras, a representante na Educação Especial da Coordenadoria sempre orientam de que a aluna deve estar na escola, presente, para evitar as faltas.
    Já ouvi que o bullying não é motivo para faltar à escola, muitos alunos passam por isso.
    Também já ouvi que “nada podemos fazer quanto a isso”, “não podemos obrigar as colegas a gostarem de sua filha”, ” se esta escola não serve, procure outra”.

    Minha filha é aquela menina sozinha no recreio, isolada, expressão deprimida, muito diferente que brinca, que fala muito, canta em casa. Em casa ela sorri. Na escola, não, seu semblante é
    inseguro e perdido. Percebe-se nitidamente que sofre. Sua expressão é a do prisioneiro, que só espera a hora de sair dali. E é assim que ela age. Quando ela me enxerga na saída e começa a correr, aí ela sorri. Sente-se em liberdade da prisão.

    Agora, a escola exige sua frequência, impondo dificuldades de toda a ordem. Está clara a má vontade e o objetivo de reprovar minha filha.

    Como ela faltava muito, eu comunicava a escola, que me tranquilizava, orientando que eu a trouxesse quando pudesse. Então fui ensinando-a em casa, através do contato com a professora, pegando a matéria, adaptando-a em casa. Assim, ela está com ótimas notas, está aprovada em notas. Mas sua frequência não é suficiente.

    E para recuperar as faltas, a escola exigiu que ela fizesse a recuperação em turno inverso.
    É claro que houve dificuldade para ela aceitar ir a escola em outro turno também, já que ela resistia em ir no seu turno. Comuniquei a escola desta impossibilidade e solicitei outra forma de recuperação, como por trabalhos feitos em casa. A escola negou e não me apresentou outra alternativa.

    Pesquisando a legislação, encontrei a Resolução 230/97 do CEE do RS, que faculta o atendimento domiciliar. Fiz o requerimento, incluí Laudos médicos e da psicóloga como embasamento. A escola não apresentava uma resposta, o tempo foi passando, novamente, levei os mesmos documentos, solicitando esse atendimento.

    Após algum tempo, eu sempre requerendo uma resposta, a direção me informou que o caso estava para ser resolvido pela Coordenadoria de Educação, que eu esperasse a resposta.

    Até que obtive a resposta que poucas chances teria, porque o caso de minha filha não se enquadrava na Resolução. Mas no dia seguinte a escola me chamou, pedindo mais um atestado médico que informasse a sua impossibilidade de ir à escola.
    Em todas estas tratativas, fica clara a intenção de prejudicar minha filha. Pois sei de muitos casos assim, as escolas não computam todas as faltas, resolvem a questão entre escola e os profissionais da saúde e família. Porque a falta do aluno que apresenta distúrbios neurológicos, não é a mesma falta quando não há estas situação, são faltas motivadas por outros fatores, de ordem familiar, personalidade do aluno ou questões sociais e outros.

    Portanto, a aprovação de minha filha está nas mãos de pessoas das quais não recebi qualquer suporte nas dificuldades apresentadas na socialização de minha filha na escola em que ela estuda. Bastante preocupante esta situação.

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