Por Gisele Fontes

filhoe
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: A foto é do cartaz do filme “O filho eterno”, onde aparecem em destaque os personagens vivenciados por Marcos Veras (o pai), Pedro Vinícius (o filho) e Débora Falabella (a mãe com um bebê no colo). Na parte inferior do cartaz, os créditos do filme.

De onde vem o luto dos pais de recém nascidos com síndrome de Down? Será que este luto é algo que existe naturalmente dentro de nós, aguardando para se realizar, sempre como uma possibilidade? Ou seria uma construção social?

Para responder a essa pergunta precisamos entender o que é esse luto. O luto é o resultado da constatação de que a criança não corresponde ao filho idealizado. Mesmo que muitos não alimentem o desejo de ter um filho mega inteligente, bem sucedido em qualquer aspecto da vida e admirado em seu meio, a maioria espera ter um filho “normal”. E o conceito de normalidade (assim como o de deficiência) é construído socialmente, no contexto capacitista em que vivemos, que inferioriza a pessoa com deficiência. Então, quando nasce uma criança com deficiência, ela desafia o conceito de normalidade construído socialmente, o que causa sofrimento aos pais.

No entanto, a simples convivência com o filho mostra gradativamente aos pais o quanto é falaciosa a noção de normalidade e, em pouco tempo, mais para uns, menos para outros, é possível que todos aqueles conceitos pré-formados sobre a pessoa com deficiência se dissolvam no imaginário das suas famílias, restando a certeza de que não há um padrão de normalidade. Todos nós somos diferentes entre nós mesmos.

Chegamos, assim, ao fim do luto. E, longe de representar a aceitação do filho, pois o luto não está contido apenas na rejeição, o período de enlutamento nos possibilita a desconstrução desses conceitos sociais capacitistas. Desses pré-conceitos, preconceitos que muitas vezes nem tínhamos clareza de estarem dentro de nós. Se eu não desconstruo minhas pré-compreensões sobre a pessoa com deficiência, durante a minha trajetória de enlutamento, mantenho equivocada e preconceituosa a minha visão sobre o meu filho. E, se não ofereço à sociedade um contraponto à visão capacitista, ajudo a manter consolidado o pré-conceito sobre as pessoas com deficiência, alimentando e renovando o preconceito.

E é esse o contexto da narrativa do livro/peça/filme O Filho Eterno. O conflito interno de um homem que não conseguiu perceber o quanto suas compreensões sobre a síndrome de Down eram equivocadas. E, por não ter percebido, não as desconstruiu, até que ao final “aceitou” o filho sem jamais tê-lo conhecido de fato, pois o que aceitou foram os estereótipos através dos quais ele olhava para o filho. Tanto é assim, que o título presta homenagem a um dos maiores estereótipos – o de que as pessoas com síndrome de Down jamais serão autônomas, mas eternamente dependentes de seus pais.

E, ao narrar essa trajetória, a principal mensagem que o filme nos passa é a de que tanto faz que todas aquelas pré-compreensões equivocadas sobre as pessoas com síndrome de Down sejam estereótipos, basta que você “aceite” seu filho. Mas, sem desconstruir tais pré-compreensões, não estamos aceitando nosso filho, o que estamos aceitando é a visão preconceituosa sobre ele. E, pior, estamos a reproduzindo.

Para nós, pais de pessoas com síndrome de Down que desconstruíram o preconceito, é muito fácil perceber esse mecanismo. Mas, para o senso comum, não. Inevitavelmente, O Filho Eterno deixará à sociedade a mensagem de que nossos filhos correspondem a todo aquele estereótipo capacitista que compõe o imaginário do protagonista e que encontra sua rendição na “aceitação”. O filme tangencia a abordagem da síndrome de Down de uma tal forma, que não deveria se chamar O Filho Eterno e sim A Egotrip de um Pai, pois ali, o filho com síndrome de Down é apenas o gatilho para a narrativa. Não estou querendo dizer que as angústias de um ser humano não sejam válidas e nem legítimas. Mas então que se assumisse que o enredo é sobre o pai, sem importar muito quem ou o quê está dialogando com ele.

Nada mais prejudicial à luta contra o preconceito e a discriminação às pessoas com síndrome de Down do que a mensagem de que são pessoas dependentes que só precisam de aceitação. Anos de esforços pelo esclarecimento da sociedade e luta pelo reconhecimento da autonomia das pessoas com síndrome de Down sendo embaçados pela força comercial de um filme produzido por uma gigante da mídia, que, para explorar a comoção social, naturaliza, legitima e romantiza o preconceito e a discriminação na sua forma mais cruel, a de um pai para com o seu filho. Naturaliza, legitima e romantiza porque a apresenta travestida de conflito interno. Nenhuma forma de preconceito deve ser celebrada apenas por estar romantizada. O Filho Eterno deixará como legado, ao senso comum, uma nova onda de consolidação de pontos de vista e considerações falaciosos sobre a pessoa com síndrome de Down.

E quando eu pensava que isso era o pior que o filme poderia causar, assisti ao vídeo em que a Tathi Piancastelli desabafa após ver o trailer oficial do filme. E estou envergonhada. Envergonhada por não ter passado pela minha cabeça a dor que causaria a uma pessoa com síndrome de Down assisti-lo. Envergonhada por não ter perguntado antes a uma pessoa com síndrome de Down como ela se sentia diante de tudo isso. Me perdoe, Tathi. Ficou pra mim a lição sobre a necessidade de, em qualquer situação, sempre dar voz a quem tem de fato o protagonismo.

Eis o desabafo da Tathi:
https://m.facebook.com/story.php…

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