Por Ciça Melo e Fabiana Ribeiro

Queridos pais,

Sem dúvida, as escolas vivem uma nova era. Antes da LBI e depois da LBI – a lei da inclusão. Podemos reclamar, podemos achar que não está bom, mas, como famílias, podemos questionar mais e fiscalizar mais as escolas. Fato. Quando não o fazemos, e deixamos tudo a cargo da escola (e de nossos terapeutas), estamos sim, como família, sendo ausentes nesse processo de construção da inclusão.

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FOTO DE MARIANA PERRI.             DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto, em preto e branco, mostra uma mão aberta registrada contra a luz

Mas, se falamos às vésperas de um novo ano aos pais, é que, ao longo deste 2016, não foram poucas as famílias que nos procuraram para dizer que seu filho não tinha um laudo, portanto, não entrava na lista dos chamados alunos de inclusão. E uns diziam isso com tristeza, quase na certeza de que, sem o rótulo, havia perdas relevantes no aprendizado. Noutros, o que se notava era alívio, como se, a despeito dos ganhos para aquele aluno, ser enquadrado como aluno de inclusão provocasse constrangimentos para a criança e para a família.

Entramos, pois, na polêmica do diagnóstico. Afinal, as escolas também precisam se proteger. Imaginem só se cada família alegasse que o filho tem baixa concentração ou confunde as letras ou pedisse uma cor de papel para melhorar o contraste, ou, ou, ou…, é uma lista infinita de pedidos. A escola não está aqui para isso. Não pode ceder aos caprichos dos filhos nem às demandas dos pais. Portanto, se um aluno – e não um filho – precisa ter uma prova adaptada, é preciso que isso seja dito por um especialista. A começar pelo médico que apresentará o seu diagnóstico do caso. A seguir pela equipe multidisciplinar que o atenda. Nunca pela família. Ao papai e à mamãe, cabe colaborar com o processo, fiscalizar, questionar, cobrar, mas nada além disso. Controlemo-nos, pois.

E quem não tem diagnóstico fechado, mas visivelmente apresenta transtornos de aprendizado ou comportamentais? Quer dizer que aluno de inclusão tem que ter diagnóstico fechado? Não. Mas tem que ter laudo médico. E é desse laudo que muitos pais fogem. Sentem vergonha. Medo de serem todos estigmatizados. Temem serem considerados os tais alunos de inclusão da escola. Um medo que é prejudicial aos filhos que deixam de usufruir de direitos da inclusão.

Queridos pais, fiquem(os) calmos. Laudo não é vergonha. Laudo apenas ajuda a escola e os terapeutas a apontarem as questões e as dificuldades do aluno. Óbvio que seria melhor que não fosse necessário laudo, que a sociedade pudesse olhar para o indivíduo, porém, estamos muito longe da Finlândia. E, se queremos mais flexibilidade das escolas, o laudo é necessário, sim. É uma garantia para todas as partes. Uma garantia – e não algo que deva ser usado contra o aluno, como se um pedaço de papel pudesse dizer o que um pessoa pode ou não pode fazer. Laudo não é prisão. Muito ao contrário, em alguns casos, pode ser até libertador.

Uma coisa é certa: um laudo não deve ser visto como algo sigiloso. Só escondemos aquilo que temos vergonha. E por que ter vergonha de algo que está claro para todos? Por que temer um rótulo se, muitas vezes, seu filho – sem esse temido laudo – já está estigmatizado pelos colegas, demais familiares e até professores? Estigmatizado injustamente, aliás.

O laudo traz mais clareza. Tira das sombras opiniões subjetivas sobre o aluno. Explica e justifica comportamentos. Abre uma janela para adaptar material, ementas, provas, atividades. Confere ao aluno uma educação mais próxima de suas necessidades. Fugir de um laudo é desviar da verdade. Em plena era de inclusão, não precisamos mais disso, não é mesmo? Que 2017 seja diferente para muitas famílias. Em alguns casos, um aluno mais produtivo em sua escola depende – e muito – desta falta de vergonha.

 

Um comentário em “Laudo não é vergonha – ou carta aberta aos pais

  1. Faltou dizer q muitas vezes um laudo é necessário até para alguma eventual reembolso do seguro Saúde ! Ótimo texto e bem esclarecedor para os pais que ainda tem esta dificuldade !
    Parabéns Para Todos ! Cecilia Martinho da Rocha

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