Denise Aragão*

Quando o sol nasceu hoje, acordei sabendo que, mais uma vez, serei alvo de julgamentos, por diversas vezes ao longo deste dia. Pois hoje, infelizmente, não será diferente de ontem.

Minhas atitudes – ou a falta delas – serão consideradas equivocadas, permissivas ou castradoras por alguém em algum momento. Minha imagem refletida no espelho revela uma mulher cansada. Sem dúvida, as limitações e dificuldades trazidas pelo autismo de meu filho são grandes obstáculos a serem enfrentados. Mas meu cansaço maior tem outra origem.

O que me leva à exaustão física e emocional são os muitos julgamentos e críticas, os olhares de reprovação em minha direção, recriminando-me.

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: na foto, Denise (mulher loira de cabelos lisos na altura do ombro) carrega o filho no colo. O menino, branco de cabelo castanho liso, veste uma blusa vermelha e segura em sua mãe. 

Jamais busquei a perfeição; longe disso, apenas almejo a felicidade de meu filho. E esta felicidade passa, necessariamente, pela sua inclusão na sociedade. Inclusão na concepção mais abrangente da palavra. E para que esta inclusão aconteça, eu preciso lutar todos os dias, a cada segundo, incessantemente. Para que ele tenha seu direito à educação respeitado, por exemplo, é praticamente necessário que eu “lute” com “meio mundo” para que isto aconteça.

Mais de uma vez ao dia, preciso explicar às pessoas o que é autismo e por que meu filho tem direito à prioridade em filas de atendimento público ou privado. Alguns compreendem, mas a grande maioria não faz o menor esforço para isso. E isto cansa, sabe?

Existem dias tão difíceis que sinto vontade de “fugir” para bem longe de toda esta sociedade hipócrita. E, em alguns deste dias, fico imaginando que deveria existir um lugar onde eu e meu filho pudéssemos ser felizes, sem ninguém para recriminar o que quer que fosse. Mas então lembro que cabe a mim a tarefa de ajudar a construir este lugar. E esta é uma missão que jamais desistirei de cumprir, quer a sociedade colabore ou não para isso.

A triste realidade é que a grande maioria das pessoas é extremamente egocêntrica e pensa apenas em seu “próprio” umbigo. Não se importa com o outro, principalmente se este “outro” fizer parte das minorias. Na concepção de muitos, julgar e criticar é infinitamente mais cômodo e conveniente do que amar os diferentes.

O que muitos não veem, ou NÃO querem ver, é que julgamentos e críticas (destrutivas) apenas provocam sofrimento e dor naqueles que são alvo destas.

O mundo seria um lugar muito melhor de se viver se todos nos colocássemos no lugar do outro! A tal da empatia, sabe? Aquela que muitos dizem que as pessoas com autismo não têm… todavia, percebo que empatia é “artigo de luxo” nos dias de hoje. Ninguém sabe as dores que trago em meu coração; tampouco veem as longas noites em que a insônia é minha triste companhia e o medo do futuro me atormenta como nunca. Poucos sabem que muitas vezes sorrio quando, na verdade, gostaria de chorar.

Gostaria que as pessoas procurassem nos entender e nos acolher, ao invés de nos oferecer olhares de reprovação. Seria tão reconfortante encontrar uma “mão solidária” ao invés de um dedo apontado.

A sociedade como um todo deveria compreender que nem toda deficiência é visível aos olhos, mas que todo o preconceito é odioso e odiável, venha de onde vier e de quem vier. O preconceito e as críticas da sociedade já provocaram grandes feridas em meu coração.

Apesar disso, sou forte, destemida e guerreira, por amor ao meu filho. Este amor que me move e me faz enfrentar intempéries e tsunamis é mais forte do que tudo.

Este amor é capaz, inclusive, de VENCER a incompreensão e a intolerância.

*Trecho extraído do livro “Eu, meu filho e o autismo: uma jornada inesperada.

Um comentário em “Desabafo de uma mãe de autista 

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