“Vem, meteoro” é expressão recorrente no Facebook. Soa, muitas vezes, quase como um pedido. Simboliza uma decepção com a humanidade, um cansaço com o mundo. Um mundo que tem dito mais “não” do que “sim”. E que tem andado pra trás, bem pra trás, criando muro entre as pessoas, julgando ao primeiro post e banalizando o sofrimento do ser humano. Um mundo que divide, compartimenta e, acima de tudo, deseja excluir aquilo – ou quem – que não se compreende.

Mas esse mesmo mundo dá voltas e encanta. E aí a gente pede para o tal meteoro esperar um pouco. “Passa em Marte primeiro”, já li por aí. Porque aqui, neste planeta, com estas pessoas, há quem não se cale diante de injustiças cotidianas, como querer despejar um filhotinho de cachorro tirado das ruas porque ele chora de noite.

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto sugere que há duas crianças, uma maior e outra menor, andando de mãos dadas. O foco se concentra, em maior parte, nas mãos, não mostrando rostos, apenas a ação das crianças. (Foto de Mariana Perri)

Há pequenos gestos acontecendo por aí. Olhe ao redor. É o moço que ajuda a senhora com as compras do supermercado e vai com ela até a porta de casa. É a criança que se propõe a ajudar o banhista que caiu no mar e, por causa do balanço das ondas, ele não consegue se levantar. E, então, é o menino quem cai. E vem outro para dar a mão. É o curso de inglês que muda a sala de uma turma porque um dos alunos quebrou o  pé e, por isso, não pode subir as escadas – sem a família ter pedido absolutamente nada. É ter um bolo sem leite para o amigo do aniversariante com alergia se deliciar na hora do parabéns do filho. É o colega do escritório dar de presente uma agenda para o amigo esquecido que levou bronca do chefe. É ligar para o amigo que foi zoado na escola só para saber se está tudo bem – e aproveitar e peguntar qual foi o dever de casa.

Nada disso precisa de grande esforço. Alguns nos exigem segundos; outros, minutos do nosso tempo. E tudo isso de uma forma ou de outra é inclusão na veia. Não a inclusão dos livros, dos pedagogos com pós-doutorado ou dos diretores de RH que querem se ajustar à nova lei. Não. É a inclusão corriqueira. É aquela necessária para que a outra, maior, mais macro, mais estruturada, saia do campo das leis. É a que você precisa ter com seu vizinho, seu primo ou com seu porteiro. São gestos pequenos, bem pequenos, que transformam a pessoa que está logo do seu lado. É como algo que contagia. Que pega em você, te toca e você sai transmitindo por aí. Daí, já não é mais só você. É o outro, depois o outro, e mais um, e mais um. E, pronto, quando você perceber, você ficou até indignado. Com a escola que nega matrícula a pessoas com deficiência, com o restaurante que não tem cardápio em braille, com a loja sem cabine que comporte uma cadeira de rodas, com a firma que contrata pessoas com deficiência e não profissionais que, por acaso, têm deficiência. Pronto! Foi mordido pelo bichinho da inclusão.

Então, quando olharmos ao redor, podemos esperar, torcer e vibrar pela vinda do meteoro. Ou, em vez disso, podemos acreditar que esse mundo aqui tem jeito. E gritar para toda a galáxia: “Vai, meteoro!”. Depende de nós.

Texto de Fabiana Ribeiro

Um comentário em “Vem ou vai, meteoro?

  1. Fabi, sensível, inteligente, irretocável. Somos nós os maiores beneficiários desses gestos contagiantes, que fazem bem aos outros. Que passem os meteoros, mas só para nos lembrar da luz, da beleza e da grandeza do universo.

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