“Princesa? Você? Não, você não parece uma princesa, mas você pode ser a escrava ou a empregada da princesa” – disse a amiga para Linda. Repito: a amiga.

“Está claro que os funcionários devem entrar pelo elevador de serviço” – disse uma moradora do prédio referindo-se a Linda e sua mãe, desconhecendo que elas também eram moradoras. Repito: moradora do mesmo prédio.

“Que bonito! Pagando a escola pro filho da empregada?” – disse uma inspetora da escola ao pai que fora naquele dia buscar a Linda. Repito: inspetora da escola.

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a atriz no palco atua como Linda, Enquanto sorri, ela segura bonecos coloridos feitos de papel que representam a diversidade. São cinco bonecos de mãos dadas nas cores vermelha, verde, marrom, amarela e azul. 

Linda é Lorena. Mas podia ser Joana, Francisca ou Laura. É uma menina negra, de classe média, que vive na Zona Sul do Rio. Precisa enfrentar os preconceitos diários das escolas, dos cursos de idiomas, dos parquinhos. Tem de compreender na marra, mesmo sem entender, os olhares tortos de vendedores, de vizinhos, dos colegas de sala. É o atendimento ruim na loja. São as expectativas mais baixas. São os risinhos por causa do cabelo. É o bullying disfarçado alimentado e realimentado pelas famílias em casa, por essa nossa sociedade cruel e superficial. Mas, mesmo diante disso tudo, mesmo quando der vontade de sair correndo, é preciso lembrar, Lorena-Linda-Joana, lágrimas não salvam ninguém. Não há tempo para chorar, ainda que sobre tempo para sofrer. Em vez disso, é hora de dizer, sim, sou diferente de você. E daí? E celebrar porque, em pleno século XXI, as dores de Linda serão menos menos silenciosas do que as de avó. Linda terá colo de pai e mãe, mas terá suporte de políticas afirmativas bem imperativas, poderá colocar na cadeia quem cometa o crime de racismo, poderá ser orgulhar por ser única e… linda!

Reparem: a Linda parou no Paratodos. Porque assim como milhões de pessoas negras sofrem preconceito por causa da cor, existem milhares de outras que são excluídas por terem alguma deficiência. E, há algo que nos une neste momento: o sentimento de não fazer parte, quando o que se quer é fazer parte. Essa dor que, ora, abala é a mesma dor que nos empurra pra mais adiante. Ela vira desejo. Desejo de mudar.

E, quando Linda aparece no teatro, tão perto de nós, ela nos dá um choque de realidade e espelha aquilo que temos de ter vergonha de ser: preconceituosos à beça. Porque Linda está entre nós. Às vezes, dentro de nós. Mas, na maioria das vezes, como nossa maior vítima.

Por tudo isso, por acreditarmos que estamos falando não somente de racismo, mas de diferença, de nos aceitarmos a despeito do universo a nosso redor, queremos ver cada vez mais gente indo ver a sua – a dele, a nossa, – história na peça “Marrom – Nem preto nem branco” que fará sua última apresentação no Teatro Ipanema, no próximo domingo. Custa R$ 30 ou R$ 15, para quem tem direito à meia entrada. Injusto dizer que a peça é para criança: é para todas as idades, porque precisamos expulsar nossos demônios e, Lindona, você dá uma baita de uma ajuda. (Fabiana Ribeiro)

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