Henrique tem hoje 16 anos, ainda tem dificuldade de socializar e de se comunicar. Algumas vezes pode ser agressivo, principalmente contra si mesmo. Continua gostando de desenho animado. É o que nos conta seu pai – o jornalista Luiz Fernando Vianna – ao longo das quase 200 páginas do seu “Meu menino vadio: Histórias de um garoto autista e seu pai estranho”.

Lançado em janeiro deste ano, o livro nos traz a verdade nua e crua de que “apenas amor incondicional e cuidados intensivos não bastam”. Com muita coragem, Vianna não adoça, conta abertamente como tem sido sua vida. Alguns chegam a largar o livro ou ficam até mesmo com raiva do autor. Prá mim, a honestidade me trouxe alívio. Foi isto que me permitiu pensar também nos meus sentimentos. Nem sempre tão nobres. 
Logo no início, Vianna conta sobre a alegria de escutar Henrique repetir dezenas de vezes “Papai chegou” quando ele entrava em casa vindo do trabalho. E ainda tem quem duvide sobre a possibilidade de uma pessoa com autismo ter ou expressar seus sentimentos… Mas nem tudo são flores, como sabemos. E é sobre o dia a dia que Vianna nos conta, sem dourar a pílula, fala dos momentos mais difíceis. 

Então, ler sobre o dia em que disse “não vou aguentar” ajuda a tantos familiares que já estiveram nesta situação. E ver no parágrafo seguinte que ele aguentou, reforça a ideia de que todos aguentaremos. Mesmo que o autor nos diga que não havia alternativa, o livro nos mostra claramente o que o impulsiona: o amor. 

Entre os muitos livros citados, “O Cérebro Autista” de Temple Grandin é um deles. Vianna traz as duras críticas que a autora faz aos rótulos estabelecidos às pessoas. Ela vai mais longe e pede que pais e professores não permitam que uma criança seja definida por uma classificação do DSM ou CID (sistemas classificatórios de diagnósticos). O autor afirma ainda que é apenas uma palavra – que “não ajuda em nada na lida do dia a dia”. 

Vianna assume todas as suas culpas – sem tapar o sol com a peneira. Mas também nos leva a refletir sobre qual o papel da escola, dos terapeutas, da família ampliada e até da sociedade como um todo. Ao relatar um dia no shopping quando ele diz a uma senhora “desculpe, mas ele é doente”. É quase como se esta senhora representasse todos nós. E se temos que nos desculpar, é por que temos a quem culpar. Mas de quem é a culpa? Por que não conseguimos conviver com as diferenças? 
Entretanto, apesar do próprio autor se declarar um pessimista, já no meio do livro, ele diz “pode ser que as gerações futuras encontrem um cenário mais propício à inclusão na sociedade e à aceitação das particularidades das pessoas com autismo”. Por falar em pessimismo, Luiz Fernando Vianna se apresenta como pessimista, covarde, depressivo, alcoólatra e bipolar. Eu o vejo como realista, honesto, verdadeiro e acima de tudo, corajoso. Venha decidir por você mesmo. Amanhã Luiz Fernando Vianna e eu estaremos na livraria Blooks às 19h conversando sobre seu livro e muito mais.

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