Uma viagem ao México

Por Ciça Melo, Incluir para Crescer

Ele tinha apenas quatro anos quando a médica nos solicitou uma ressonância magnética. Só de imaginá-lo entrando naquela máquina enorme, barulhenta, meus olhos se enchiam de lágrimas. Dor de mãe. A médica recomendou que meu menino fosse anestesiado. Evitaria, assim, que ele ficasse assustado e se mexesse, atrapalhando o exame.

Só para agendar este exame já foi uma tortura. No Rio de Janeiro, são poucos locais que fazem ressonância em criança pequena, consequentemente não se arruma vaga tão fácil. Mas, como toda viagem, a espera faz parte. E, desta maneira, começou a nossa.

Viagem? Sim, isso mesmo. Expliquei ao Daniel que ele faria uma viagem. Numa máquina “muito maneira e muito mágica”. Podíamos escolher qualquer lugar para ir com ela. Ele iria sozinho, porém, eu estaria ao lado da máquina assim que ele voltasse. Pronta para ouvir suas histórias, de braços abertos para recebê-lo. Como faz para todas as viagens, Daniel começou a se animar.

Foi difícil escolher para onde ele queria ir – afinal, eram tantas as opções. Ele terminou escolhendo o México. No dia do exame, não havia nervoso: havia frio na barriga. Típico de um dia de viagem. Chegando no “aeroporto”, eu falava com meu filho todo o tempo como se ele fosse viajar.

Pude ficar com ele até que fechasse os olhos, minutos antes de entrar na máquina. Trinta minutos foi o tempo que esta viagem durou. Foram setenta minutos que mais pareciam as 12 horas que levamos para ir para o México. No fim do exame, as enfermeiras me chamaram para voltar a ficar ao lado dele, pois já já Daniel acordaria. Me orientaram a ficar bem perto, dizendo que a maioria das crianças acorda de maneira agitada. Algumas gritam e choram neste despertar. Daniel demorou um pouco mais, acho que estava curtindo a viagem. E, assim que abriu os olhos, ele disse: “Mãe, o México é muito legal!”.

Até hoje, quando me lembro dessa viagem, tenho a sensação de que a maternidade me fez buscar caminhos inimagináveis no cuidado com os meus filhos. Enquanto Daniel curtia o México, lá estava eu nos desertos do Saara. São muitos os lugares que também “visitamos” quando vivenciamos de forma plena a maternidade. Já me senti passeando em campos de flores da Dinamarca, me perdendo em Nova Deli ou descendo as ladeiras do Curuzu. É desse ir e vir, do se perder e se achar, é que vamos falar aqui. E, juntos, vamos crescendo. E, por que não, viajando um bocado por aí?

CIÇA MELO é jornalista com mestrado em Psicologia Comportamental. Uma das fundadoras do Movimento Paratodos, que visa a promover a inclusão das pessoas com deficiência. Lucas, 13, Luiza, 11, e Daniel, 9, enlouquecem seu dia a dia com questionamentos e com a busca de caminhos alternativos para esse mundo. Quer escrever para ela? Mande para: cica.melo@paratodos.net.br

Um comentário em “Paratodos na revista Crescer

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