revista MAGEnsaio: Technocolor roupa: Valério Araújo #walerioaraujo #photography #albina #moda #fashion #revistamag
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto mostra Andreza com mãos na cintura olhando de frente. Ela usa um vestido com pedras em tom dourado e decote pouco acima do umbigo

Alvo de piadas e apelidos maldosos nos tempos de escola e faculdade, Andreza Aguida não se escondeu do mundo. Em vez disso, se expôs ainda mais. Hoje, aos 37 anos, a modelo é fotografada para inúmeras campanhas de moda e de publicidade. Mais recentemente, participou do comercial das latinhas “Skolors” – campanha da Skol que visa a destacar a diversidade dos tons de pele das pessoas. Idealizadora do grupo “Albinos do meu Brasil e do mundo” no Facebook, Andreza reconhece que sair mais forte da exclusão social vivenciada não é o mais comum. “As pessoas sofrem muito quando estão fora dos padrões da sociedade. Eu fiquei mais forte. Mas sei que sou exceção: as pessoas se fecham e sofrem caladas. Saí da minha solidão, mas, para isso, tive que me expor ainda mais.”

PARATODOS: Hoje, você está em campanhas de moda, seu rosto já foi clicado por vários fotógrafos. Geralmente, as diferenças fazem a pessoa se fechar. Mas, no seu caso, você entrou para o mundo da moda, tão cheio de rigores e padrões estéticos… Você sempre foi assim, de se expor?

ANDREZA: Não nasci bem resolvida. Eu era tímida, porque me sentia justamente muito exposta por ser diferente. Eu era a “branquela”. Eu queria morrer! Hoje se alguém chama “ei, branquela”, eu grito de volta: “eu, aqui”! O mais engraçado é que foi a moda que fez isso comigo: me expôs. Logo eu que não seguia os padrões. E, como resposta, recebo mensagens de muitas pessoas que escrevem para me dizer o quanto sou bonita. A moda me expôs, de um jeito que me abri para o mundo. Se, antes, um insulto, uma risadinha, eram como uma facada; hoje eu quero dar a cara à tapa. E assim a gente ganha visibilidade. E força, muita força.

PARATODOS: Como assim?
ANDREZA: Antes as pessoas olhavam pra mim, e isso me incomodava. Hoje não penso assim. As pessoas são curiosas, faz parte de ser humano. E eu também sou curiosa. É normal as pessoas olharem para aquilo que é diferente. De certa forma, quando eu entro em algum lugar, eu estou cedendo à curiosidade das pessoas, eu gero curiosidade. E isso em toda a minha vida, desde sempre. Pensa bem: no meio de tanta gente comum, a diferente era eu. As fichas foram caindo com o tempo, eu fui aprendendo a lidar com os olhares, com os comentários, até com as maldades. Acabei descobrindo que eu tinha dois caminhos:  ou eu ficaria forte ou eu ficaria depressiva.

PARATODOS: O que você escolheu?

ANDREZA: Fiquei mais forte, claro. A exclusão me fortaleceu, mas sei que isso não acontece com todo mundo. A exclusão causa um efeito gigante na gente. As pessoas não têm ideia. Era difícil me relacionar com outras pessoas, ter namorados, fazer coisas simples. Já chorei calada, já fingi que não ouvi tanta coisa, a gente vai engolindo tristezas. Cada um reage de um jeito. Tem gente que se esconde, prefere sumir. Eu escolhi seguir adiante. E eu tinha o meu jeito de resolver as coisas. Lembro dos tempos de Educação Física, por exemplo, eu era sempre a última a ser escolhida. Mas, em vez de chorar no canto, eu sentava na grama, na quadra e dizia: “Não vai ter jogo”. Eu não podia deixar que me fizessem sentir mal. E eu também protegia meus irmãos. Tenho três irmãos albinos. Eu batia por eles. Ninguém podia falar deles, rir deles, machucá-los.

PARATODOS: Os tempos de escola foram difíceis?
ANDREZA: E como! Não faltam histórias pra contar. Eu era a albina. Eu virei alvo de piada. E isso me atormentava. Sem falar que professores, querendo o meu bem, me tornavam ainda mais exposta. Veja um exemplo. Na escola, meu lugar em sala era num tablado, porque não sou apenas albina, também tenho baixa visão. Nem meus pais tinham pedido isso, mas os professores queriam o meu bem. Imagina a cena. Eu era diferente e ficava ainda mais exposta, em destaque. Aos 9 anos, eu falei que não queria mais ficar no tablado e que, nem ali, eu enxergava. Aquele lugar só servia para me expor ainda mais e me distanciar dos outros alunos. Eu queria sentar junto com as pessoas. Na escola e na faculdade, eu sofria bullying, ano após ano. Mas isso foi alimentador. Me chamavam de personagens, falavam pelas minhas costas, riam da minha pele, da minha cor. Sempre tem os que defendem, mas sempre tem gente que quer te magoar, te ferir. Tinha gente na faculdade que não conseguia falar comigo. Eu era mulher e albina numa faculdade de engenharia elétrica. Consegue imaginar?

PARATODOS: Mas a escola mudou nos últimos anos?
ANDREZA: A escola mudou, mas ainda falta muito diálogo. Nem todos os professores são esclarecidos. Já vi professor de Educação Física colocar aluno (com albinismo) no sol. Hoje se fala mais. Sem falar que tem a lei também.

PARATODOS: As pessoas não sabem lidar muito bem com as diferenças… 
ANDREZA: Se antes as pessoas não chegavam perto de mim por causa da diferença, hoje não se aproximam por causa do meu empoderamento. Respeito deveria ser algo como escovar os dentes ou passar protetor solar. Deveria ser um hábito praticado todos os dias. Infelizmente, os pais não ensinam esse básico a seus filhos. E essas crianças chegam na escola e fazem coisas que seus pais nem imaginam. Essas crianças se tornam adultos que fazem muita gente sofrer. Eu venci a exclusão, mas nem todos conseguem. (Fabiana Ribeiro)♦

Um comentário em ““A exclusão me fortaleceu”

  1. ADOREI!
    “… Respeito deveria ser algo como escovar os dentes ou passar protetor solar. Deveria ser um hábito praticado todos os dias…”.
    Simples e definitivo assim! Acho fundamental praticarmos a empatia – como exercício mesmo, e refletirmos sempre em nossas atitudes, pensamentos e especialmente o exemplo que somos.

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