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DESCRIÇÃO DA IMAGEM:  a foto mostra um menino pequeno correndo. Ele está de costas e veste camiseta cinza e short estampado azul. Corre em direção a um muro. No canto direito da foto, há parte de um patinete. Foto de Mariana Perri.

Poderia ser apenas mais um pique-pega. E devia mesmo ser. Mas algo me chamou atenção naquele grupo de garotos que corria de um lado para o outro do parque. Um menino havia pedido para entrar na brincadeira. Porém, ouviu como resposta: “você não pode correr porque você é gordo”. Para minha surpresa, não houve resposta, tampouco reação. Apenas se conformou, como que acostumado a ouvir isso.

Este episódio me fez refletir sobre a questão do quanto a busca da felicidade pode estar relacionada à correspondência a determinados padrões também estéticos que a sociedade nos impõe. Hoje não apenas você tem que ser feliz, como também tem que ser magro e “sarado”, correspondendo, assim, a um estereótipo de beleza único. Existe um modelo a ser seguido e ai de quem não se adequar a este modelo ou paradigma.

Por que alguém não pode ser gordo, ou magro, ou amarelo, ou baixo, ou preto, ou vermelho? No fundo, a pergunta é: por que não se pode aceitar a diferença? Por que é tão difícil lidar com o que não é igual? Por que incomoda tanto o que difere do padrão?

Talvez, seja por isso que hoje a felicidade se imponha como uma obrigação! Está estandardizada, uniformizada – torna todos iguais, pasteurizadas em sua homogeneização.

Outra forma de olhar este mesmo episódio é também poder imaginar que talvez tenha sido uma oportunidade para aquele que insultou “o outro”. Explico. Talvez, ele mesmo tenha sido ou seja alvo desse tipo de comentário e tenha encontrado ali uma oportunidade de “se vingar” e de praticar uma pequena “maldade”. Estivesse ele satisfeito com o seu próprio corpo talvez não tivesse apontado no outro um “defeito” que “reconhece” em si …

Uma terceira “interpretação” – e pode haver várias – sobre este mesmo episódio poderia, eventualmente, desembocar na questão da depressão. O garoto que ouviu pareceu não se importar, mas, inevitavelmente, o “golpe” foi sentido. Perguntei-me quantas e quantas vezes ele já não ouviu comentários da mesma ordem? Quais os caminhos que esse menino pode tomar a partir daí? Teria ele estrutura emocional para reagir e dizer ou perguntar ou, simplesmente, retrucar: “por que você me diz isso?” Teria sido uma surpresa
para o outro e também abriria uma chance de reflexão…

Poderia ser apenas mais um pique-pega. Não foi. Nunca é. (Flavia Parente)

Um comentário em “Era pra ser um pique-pega

  1. Eu sempre fico com a sensação que essas coisas vem de casa… Mesmo quem foi ofendido na rua, viu os amigos fazendo igual, não sei. Acho que não faz. Se não tiver exemplo em casa, não faz…

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