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DESCRIÇÃO DA IMAGEM:  a foto mostra uma parte de escada em espiral. Foto de Mariana Perri

A escolha do restaurante havia sido feita assim que o aniversariante decidira comemorar mais um ano de vida num jantar com família e poucos amigos. Para o anfitrião, a especialidade da casa importava menos do que a rampa na porta da entrada. Não à toa. Um dos convidados ainda se recuperava de um acidente de alguns anos, tinha mobilidade reduzida e usava cadeira de rodas.

A rampa na porta permitira, com tranquilidade, que o amigo entrasse na comemoração. Ao chegar, foi recebido por uma turma já bastante animada. E também decidiu embarcar no chope. Alguns muitos brindes depois, bate aquela vontade de aliviar a bexiga. Trivialidades da mesa do bar, certo? Para uns, sim. Para outros, puro motivo de embaraço.

Ora, ora, o banheiro era no andar de cima. E quem sobe escada com cadeira de rodas? E por que alguém numa cadeira de rodas faria xixi? Não deveria estar de sonda o rapaz?

O constrangimento foi geral. Apertadíssimo, o convidado tentara ao máximo adiar a ida ao banheiro. O anfitrião, aborrecido com o estabelecimento, ficou envergonhado da escolha do local. E os convidados, ora fingiam não ver a cena, ora davam força para que se chamasse o gerente a fim de que resolvesse a situação do amigo apertado.

Porém, já não dava tempo de construir elevador ou fazer um banheiro no térreo. Foi, então, que o senhor da mesa ao lado, já angustiado pelo convidado, dispara: “Se vocês continuarem a discutir, capaz de o moço não se aguentar e fazer o xixi nas calças. Vamos carregar o jovem até o andar de cima? Na volta, pensamos na obra do restaurante”, brincou o vizinho da farra.

Um minuto de silêncio.

E foram-se uns quatro sujeitos ajudar o homem a se aliviar. Ah, sim, pois o amigo também estava acima do peso.

Na volta, o clima de desconforto mudou para o de total gozação. Todos queriam saber detalhes do xixi e, especialmente, adivinhar quem teria mais do que ajudado o rapaz a subir as escadas: afinal, qual dos homens teria lhe abaixado as calças? Piadas à parte, pois esse nível de ajuda era desnecessária, o que se observou naquele jantar de aniversário fora a mais pura anedota do que vemos de inclusão por aí.

As rampas, elas não bastam. Isoladas, não representam inclusão – só ilusão. (Fabiana Ribeiro)

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