Jantar_Debret_250
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: Pintura de Jean Baptiste Debret. Retrata um jantar onde aparecem sentados à mesa um homem e uma mulher de pele clara dois escravos negros em pé uma abanando e outro de braços cruzados e duas crianças negras nuas sentadas no chão comendo o que a mulher sentada à mesa lhe oferece.
Faz tempo que não escrevo. Não estou conseguindo parar pra organizar o pensamento e passar pro papel. Não faltam pensamentos, nem papel, mas tranquilidade sim. Tenho tido ideias de textos mas estas ficam pairando na minha cabeça apenas e não consigo parar e escrever. A ideia deste texto estava assim, na minha cabeça. Até que ontem eu vi esta matéria no jornal e não pude deixar de passar para o papel.

Lá estava eu tentando relaxar durante umas curtas férias para retornar com as baterias recarregadas e pronta para voltar para rotina puxada.
Relaxada em um dos ambientes de estar do hotel, vejo ao lado um livreto e pego para ler sem compromisso. Uma ótima oportunidade de esvaziar a cabeça para que o tão cobiçado ócio criativo possa tomar conta de mim e fazer seu precioso trabalho.

Começo a ler apenas juntando as letras e as palavras, sem me preocupar em armazenar informação, justamente fazendo o contrário, deixando que a informação entrasse e saísse sem que nada ficasse retido. Pouco texto, alternado com imagens lindas e relaxantes…. E lá fui eu.

Até que certas expressões foram ficando entaladas. Entravam e não saíam e iam formando um engarrafamento de ideias incômodas. O folheto de fácil leitura era um folheto de propaganda de uma rede de hotéis com fotos de lugares relaxantes que qualquer pessoa adoraria conhecer e passar uns dias. Mas o texto, em vez de marketear que é um lugar maravilhoso ao qual ninguém resiste, que agrada a gregos e troianos, faz justamente o marketing contrário. Vende que aqueles lugares são exclusivos. Exclusivos para poucos. Só para poucos escolhidos. Apenas para poucos merecedores.

Aquilo foi me incomodando de tal forma que larguei o danado do livreto e fui caminhar em busca de outra atividade que fosse de fato relaxante. Já sei! Vou relaxar num sofá e ver um episódio de um seriado leve e alegre. Achei o sofá perfeito para os meus planos e quando fui me ajeitar para sentar, o que vejo? Uma almofada fofa, cuja estampa copiava pituras do século XVI e XVII à lá Jean-Baptiste Debret. Pinturas antigas com cenas de escravos. Olho em volta e não é apenas uma almofadinha num canto. São todas! Todas as almofadas têm estampas com cenas de escravidão. Juntando com as palavras do famigerado livreto “privilégio exclusivo” benefícios exclusivos”, minha cabeça começou a ferver novamente. Um período de nossa história triste e violenta que deve ser lembrado apenas como algo que nunca mais queremos repetir está ali, enfeitando o estar relaxante. Será que busca agradar a quem? Aos senhores de escravos? Onde estamos? Que situação é esta?

Sim, sabemos que em nosso país a desigualdade social é gritante. Mas que marketing é este que considera isso como valor? Que marketing é esse que te oferece algo que só você pode ter, deixando explícito que muitos querem, mas não podem. Será que isso é um valor para muita gente? Pra mim, não. Acabou com minha tentativa de relaxamento.

Mas o que isto tem a ver com inclusão? Tudo! Sempre que acharmos que alguns apenas podem, alguns apenas têm direito, todo e qualquer motivo é motivo para excluirmos outras pessoas de nosso convívio, de nosso ambiente. Quando deveríamos reconhecer que todos somos seres humanos e temos direito de estarmos sempre todos com todos.

Um comentário em “Quem quer ser mais igual que os outros?

  1. Através de Regina Joppert coordenadora do Núcleo de Fraternistas Correspondentes -NUFRAC recebi um artigo de Jornal O Globo onde Fabiana Ribeiro falava do Para todos, tentei localizar ela ou o para todos e não encontrava então busquei Carla Codaço e obtive sucesso; sou uma pessoa com deficiência e aqui em João Pessoa tenho lutado na defesa dos nossos direitos, entre elas pela acessibilidade ao transporte publico, no final do ano passado as empresas aproveitaram um processo de Recadastramento dos nosso passes livres para implantar a Biometria exigindo que todos passasse na Catraca, nós fomos contra essa exigência e acessamos o MP na primeira audiência conseguimos suspender que fosse obrigado para todos, mesmo assim as mulheres com deficiência tem sofrido descriminações por alguns operadores que tem se negado a abrir a porta do meio para as mesmas acessar ou desembarcar; na maioria das escolas Municipais e estaduais que estão na periferia o acesso é péssimo não tem calçadas, calcamento na rua em frente a escola, não tem sinalização, iluminação no entorno etc… Entrei com um processo no Município sugerindo essas providências teve todos os pareceres favoráveis mais o Secretario de Educação não assumiu disse que não era responsabilidade da secretaria, com isso os acidentes e os assaltos acontece exatamente no entorno das escolas em todo Brasil espero que inclua esse fator de inclusão nas próximas palestras, se já não o fazem

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