Recentemente, foi veiculada uma reportagem que me deixou estarrecida … melhor dizendo, entristecida. Um grupo de WhatsApp de mães comemorou a expulsão de uma criança com Síndrome de Asperger da escola. Segundo mães do grupo, a criança “perturbava” o bom andamento das aulas. Ou seja, consideravam que seus filhos estavam sendo prejudicados pela presença de uma criança com deficiência num mesmo ambiente escolar.

O primeiro pensamento foi o de considerar o absurdo da situação: mães comemorando a exclusão de alguém da escola, de alguém diferente, que não se encaixava no padrão, que “incomodava”?! Como assim? Outra coisa: a “queixa” era das crianças ou das mães? Muitas vezes, as crianças lidam com as situações de uma maneira muito melhor do que nós, adultos.

Mas vamos por partes… é preciso, inicialmente, pensar o papel da escola! Ela só deve se preocupar com o conteúdo? E seus valores? Não são também eles que influenciam a escolha por nós, pais, da escola de nossos rebentos? Quando colocamos nossos filhos na escola, não pretendemos também que eles se socializem, que aprendam a se relacionar com seus pares e com outras pessoas? Então, convenhamos: não são apenas matérias, como matemática, física ou química que devem ser ensinadas numa escola; é lá, onde passam grande parte de seu tempo, que nossos filhos devem aprender a conviver em sociedade. E, sem dúvida, todos nós queremos uma sociedade mais justa e solidária. Ora, mas a regra não vale na escola? Justiça e solidariedade da porta da escola pra fora?

Fico pensando, ainda, na postura da escola – expulsar o “inconveniente” e ceder às pressões da maioria (ou mesmo, de uma minoria mais ruidosa) é mais fácil do que educar alguém “fora do padrão”. É esse o papel da escola? É essa a postura que se espera de um educador? Imagino que a expulsão tenha sido o dito “último recurso”. Mas, me pergunto, teria sido mesmo? Não teria sido possível trabalhar com todos os envolvidos para chegar a uma outra solução? Não poderia ter sido a questão mediada de outra forma?

Penso, também, na criança e na sua família. Ah, muitos poderiam dizer: ele está no espectro do transtorno autista e, como tal, “não é capaz de sentir”. Pois eu te digo: você tem certeza disso? Como saber o que ela sente? Aliás, como saber o que se passa com o outro, qualquer que seja ele? Julgamos que sabemos o estado de espírito das pessoas ao nosso redor, mas quantas vezes nos damos conta, às vezes tardiamente, que as aparências enganam e que o que foi dito ou feito não reflete o que o outro sente?

Então, aquela criança que foi expulsa pode, sim, sentir! Aliás, te afirmo: aquela criança sente, sim! Talvez, diante do fato – expulsão – não tenha tido a possibilidade de expressar a tristeza ou a raiva como a maioria das pessoas, mas esta criança é uma pessoa e merece ser tratada com toda a dignidade que dispensamos ou deveríamos dispensar às demais.

E a família? Quantas e quantas vezes portas lhe foram fechadas? Quantos “nãos” e “sinto muito” já ouviram? A criança foi expulsa e aí? Para onde vai? Em qual outra escola poderá estudar? E começa a luta pela matrícula numa escola que “aceite” criança com deficiência … e, ainda mais, depois de uma expulsão? Te parece fácil? Pois é…

O que este grupo de mães não sabe é que o convívio com crianças com deficiência é uma oportunidade para seus filhos, dentre outras coisas, aprenderem o que se chama de competitividade solidária – todos ganham! É isso mesmo: num ambiente escolar em que há diversidade, todos ganham!

Atrás-do-muro
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a ilustração mostra uma menina de frente ara um muro olhando para outra menina (debruçada) do outro lado do muro

Quem “sabe mais”, seja ele professor, colega de turma, merendeira, porteiro ou coordenador, tem que usar a criatividade para ensinar quem “sabe menos”, seja ele uma criança com desenvolvimento típico ou com deficiência. Aliás, seja ele outro professor, colega de turma, merendeira, porteiro ou coordenador … Será necessário ensinar de uma outra forma, usar outro método, outros recursos, pensar novas possibilidades … em resumo, todos teremos que pensar “fora da caixa” – expressão tão batida, mas tão valorizada, por exemplo, no mercado de trabalho. E, assim, aprendemos todos!

Mas pensar “fora da caixa” exige que esperemos mais da escola. Requer que nossos filhos sejam desafiados de todas as maneiras possíveis, por todos os demais alunos – tenham deficiência ou não. Talvez essas famílias, que exigiram a expulsão de um aluno, não se deram conta de que, fora dos muros desta escola, seus filhos não poderão eliminar as pessoas. Em vez disso, terão de aprender a conviver com elas.  (Flavia Parente)


Prêmio Paratodos

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