Por Fabiana Ribeiro*

Inclusão no molho dos outros é refresco. Foi o que pensei quando fechei a tampa do dia do aniversário do Pedro, meu filho mais velho. E, em seguida, comemorei: o marido fora mais inclusivo do que eu – logo eu, tão atenta aos detalhes da inclusão e aos dilemas das pessoas com deficiência.  Bem, senta que lá vem história.

Era para ser um aniversário para poucos amigos e familiares num domingo de sol. E o menu seria daqueles que criança gosta: o bom e velho macarrão. Resolvi oferecer o molho à bolonhesa e o preferido do aniversariante – o de linguiça preparado pela avó. Os molhos seriam expostos em tigelas separadas à mesa, lado a lado com a travessa de macarrão sem molho algum. Agradaria a gregos, romanos e troianos. Só esqueci dos persas.

molhos-para-macarrao
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a foto mostra uma travessa com molho de tomate. Ao redor da tigela, há pequenos tomates.

Ainda nos preparativos, inclusiva que sou, lembrei que havia pessoas que não gostam de nem um nem de outro molho. E que, portanto, poderia ser gentil oferecer o tradicional molho ao sugo também. Para facilitar a (minha) vida, decidi que o molho de tomate permaneceria na cozinha. Eu poderia trazer o prato já feito para a pessoa que optasse pelo molho sem carne. Descer com mais uma travessa seria de grande trabalho (!) e, sem falar, eram poucas, pouquíssimas, as pessoas que prefeririam essa opção mais simples.

Feliz com a minha logística dos cardápios, dividi com o marido como organizaria o bufê, onde ficariam os talheres, os pratos que usaria, o lugar dos copos, a decisão de não usar toalha na mesa principal e, por fim, a arrumação dos molhos.

– …então, eu coloco dois molhos em tigelas e o terceiro fica lá na cozinha. Posso trazer para quem quiser ou a pessoa vai até lá. Já os copos…

Então, nessa hora, o marido desperta do sono profundo para onde a nossa conversa o conduzia. E me provocou:

– Nossa, que inclusiva!

– Oi?

– Cadê a sua inclusão? Nos molhos?

Foi o suficiente para que eu me desse conta da exclusão a que estava prestes a proporcionar a uma parte, mínima, de meus convidados. Uma falta de educação. Uma indelicadeza. Um constrangimento.

A tempo, revi minha estratégia. E apertada entre uma e outra tigela de molho, lá estava o suculento molho ao sugo. Acessível a todos os convidados. A vegetarianos, veganos e a quem mais quisesse experimentar o maravilhoso molho ao sugo do aniversário de meu filho mais velho.

Inclusão no molho dos outros é refresco mesmo. Pensamos que são necessárias mil estratégias para incluir o outro, inúmeros planos para não deixar ninguém de fora. Apontamos dedos. Criticamos o vizinho mesmo tendo um telhado de vidro bem frágil. Inclusão é exercício diário. Que nem sempre tem a ver com deficiência. Porque, no fundo, não tem. Tem a ver em incluir o outro, independentemente de quem seja, em pensar no outro e, principalmente, fazê-lo se sentir parte de um grupo. Tem a ver com respeito. E isso pode ser numa escola, numa partida de futebol, no trabalho ou simplesmente na macarronada de um domingo especial.


* Texto originalmente publicado na coluna INCLUIR PARA CRESCER, do site da revista Crescer.

Prêmio Paratodos

Um comentário em “Molho para todos

  1. Adorei o seu texto! “Inclusão é para incluir o outro” é ” um exercício diário “. Inclusão é para todos.
    Obrigada por suas palavras que me ajudaram no meu exercício diário

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