Faltavam alguns minutos para a reunião começar. O consultor que chegaria de Brasília para conduzir a reunião estava atrasado. Alguém perguntou por que ele não tinha vindo na noite anterior já que a reunião era cedo. Rapidamente, a coordenadora do grupo explicou que a filha dele de apenas 4 meses estava no hospital. Em seguida, ela disse que a menina tinha Síndrome de Down e que havia sido submetida a uma cirurgia de coração.

A próxima pergunta do grupo foi se eles haviam descoberto a condição genética da filha antes do nascimento. Ao que ela respondeu que sim. E, em seguida, veio o comentário: “Pena que aqui não se pode fazer nada com esta informação. Em muitos países, o aborto é permitido nestas situações”. Fiquei em silêncio, mas muito abalada.

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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a imagem é uma montagem de mulher de costas (recorte) olhando para centenas de pessoas que estão aglutinadas, mas desenhadas numa posição perpendicular a ela. Sobre a cabeça da mulher e entre os rostos, pontos de interrogação. A ilustração é de Joana Figueiredo

E é apenas disto que quero falar. Deste sentimento. Não quis e não quero discutir sobre a legalização do aborto. Tema que implica muitas análises. Mas quero falar do que este comentário me trouxe.

Ficou claro pra mim, naquela fala, que a pessoa com deficiência não deveria estar no mundo. Ficou claro pra mim que a pessoa com deficiência não tem nada a acrescentar. Ficou claro pra mim o conceito de menos valia. Ficou muito claro para mim a certeza de que as pessoas tem de quem pode ou não pode ser alguém no mundo. Ficou claro para mim que existe uma pergunta rodando na cabeça de muita gente por aí: quem deveria estar no mundo?

Isto eu acho triste. Talvez se eu pudesse decidir quem deveria ou não estar aqui no mundo, eu talvez decidisse que a pessoa que fez este comentário não deveria. Mas eu não posso. Tenho que aprender a conviver com os diversos pontos de vista. Mesmo que sejam diferentes do meu. Mesmo que me machuquem. E mais. Preciso aprender e reaprender a expor os meus pontos de vida e tomar cuidado para não agredir os que pensam diferente de mim. E, mais ainda, respeitar os que são “diferentes” ou aqueles que têm filhos “diferentes”. É preciso aprender. (Ciça Melo)

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2 comentários em “Quem deve estar no mundo?

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