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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a ilustração traz o que poderia ser um azulejo quebrado e branco onde se lê em letras pretas e em caixa alta: RACISM. Por cima, um martelo.

Eu e meu filho estávamos saindo do clube, quando nos deparamos, na calçada, com a seguinte cena: dois meninos de uns 6 anos de idade jogavam bola e, quando um deles errava ou fazia alguma bobagem, era chamado pelo outro de “nigger”. Em determinados momentos, esbarraram na babá e perturbaram o porteiro e, mais uma vez, soltaram o “nigger”.

Eu e meu filho nos entreolhamos e, sem nos falarmos, conseguimos adivinhar o que o outro estava pensando: “será que estávamos ouvindo realmente isso? Será que estes meninos estão se xingando e xingando outras pessoas disso mesmo?”. Nós não queríamos acreditar… não podíamos acreditar. Dois meninos, naturalmente brancos, membros de um clube de classe média alta da zona sul do Rio de Janeiro, com sotaque irretocável, estavam usando uma palavra extremamente ofensiva, que nem os dicionários de xingamentos em inglês ousam listar? Era isso mesmo?

Meu filho me olha e pergunta: “mãe, a gente vai deixar isso passar?”

Respirei fundo e disse: “não, não vamos deixar passar”.

Resolvi, então, conversar com os meninos. Eu sou, por natureza, uma otimista e acreditei que talvez os dois não soubessem o que a palavra significava ou, talvez, o quanto é ofensiva. Talvez, esses meninos não soubessem que racismo é crime. Talvez, não tenham sido ensinados em casa.

Acredito que a educação é uma responsabilidade de todos. Sendo assim, me abaixei e perguntei aos garotos se eles sabiam o que aquela palavra queria dizer. Responderam que sim! Perguntei, então, se sabiam que era uma palavra extremamente ofensiva, que era um palavrão e que não era correto chamar alguém assim. Eles responderam, mais uma vez, que sim e completaram: um xingamento utilizado entre os alunos na escola. A esta altura, a babá se aproximou e disse que era uma palavra muito usada pelos meninos, mas que ela não sabia o que significava, porque era “em inglês”. Expliquei o que se tratava e ela ficou visivelmente constrangida.

Momentos depois, um senhor se aproximou e perguntou o que estava acontecendo. Relatei o que se passou e, só aí, percebi que era o pai de um deles. Ele disse que falaria com os meninos e, assim, me retirei, achando que já havia cumprido o meu papel.

Quando estava me preparando para entrar no carro com meu filho, ele retornou e disse, talvez para tentar me fazer sentir culpada por estar me metendo na educação dos outros: “numa próxima vez, se vir algo errado, fale comigo e não diretamente com os meninos”.

Fiquei me perguntando, depois, se teria agido errado ao repreender os dois, mas, me lembrei de uma amiga professora-doutora negra, que havia estado comigo justamente naquela manhã, falando sobre racismo; me lembrei também de um post sobre “9 maneiras de pessoas brancas apoiarem a luta contra o racismo” … Me lembrei que uma das orientações era “intervenha quando você presenciar alguma situação racista”… me lembrei do quanto a discriminação me deixa indignada; me lembrei que meu filho aprende a partir do meu exemplo  e de minhas ações e não do meu discurso … Me lembrei disso tudo e não me omiti.

Pode ser que os meninos não tenham aprendido nada, pode ser que o pai tenha ficado muito mais indignado com minha intromissão no processo educativo dos garotos do que no ato de racismo praticado por eles praticado, mas eu e meu filho fizemos a nossa parte: nós nos indignamos e não deixamos passar. Eu e meu filho fizemos isso juntos. Fiquei orgulhosa dele e um pouco mais confiante nas futuras gerações (ou em parte delas).  (Flavia Parente)

 

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