Estava eu numa palestra sobre direito à educação das pessoas com deficiência, quando uma amiga relatou que outro dia sua filha buscava chamar sua atenção, dizendo: ”mãe, você está surda?”

maeefilho
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: a ilustração mostra uma mulher sentada num gramado ao lado de uma menina. A cena parece uma conversa entre mãe e filha.

Boa mãe que é, não deixou passar a oportunidade! Aproveitou para explicar para a filha que existem pessoas que realmente não ouvem e que são chamadas de surdas. E lhe disse que os surdos são pessoas com deficiência auditiva e que existem vários níveis de comprometimento: há quem ouça mal, há quem tenha uma pequena perda auditiva, há quem tenha surdez total, há quem tenha nascido surdo; há quem tenha pedido gradativamente a audição… À medida que a menina se interessava pelo assunto, minha amiga ampliava a conversa e lhe contava sobre leitura de lábios e língua de sinais.

Parece muita informação para uma criança de 3 anos e é, mas minha amiga soube ensinar sem ser aborrecida, sem ser técnica, sem ficar dando “lição politicamente correta”. Ela usou uma linguagem que sua filha foi capaz de entender; tornou o assunto interessante; despertou sua curiosidade para novos saberes. Ela aproveitou para ensinar sua filha sobre diversidade, sobre as diferenças entre as pessoas, sobre pluralidade.

Ela aproveitou para ensinar sua filha, ainda, sobre a importância do uso adequado das palavras. Existem pessoas que são surdas. Fato. Se sua filha queria chamar sua atenção, bastava perguntar: ”mamãe, você não está me ouvindo?”. Teria sido suficiente para que minha amiga notasse que sua filha queria conversar ou brincar ou ler ou dormir …

Curiosamente, no dia seguinte, o assunto mais comentado nos veículos de comunicação e páginas de redes sociais tinha sido o tema do ENEM – “desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. No fim do dia, ela comentou, aos risos, com o marido: “acho que nossa filha teria passado”.

Acho que nosso papel como pais é não deixar passar estas oportunidades que são preciosas! Estaremos, então, ajudando a formar sujeitos mais empáticos e mais humanos. Você não acha? (Flavia Parente)

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