casoanna
DESCRIÇÃO DA IMAGEM: no fundo, uma lousa que traz um desenho de uma carinha feliz que tem ao lado um quadrado que é marcado pela mão de um homem que segura um giz; abaixo, uma carinha triste, com um quadrado ao lado vazio.

Há alguns meses, fiz um curso sobre a Abordagem Pikler, que se dedica ao desenvolvimento das crianças na primeira infância. Estávamos reunidos em pequenos grupos e a nossa formadora, a pediatra francesa Isabelle Deligne, pediu que assistíssemos a um vídeo e que, depois, discutíssemos sobre o que conseguimos observar sob a perspectiva das capacidades da criança.

O vídeo mostrava uma bebê chamada Anna. Pois bem, Anna estava deitada de costas no chão e tentava colocar-se de bruços.

Isabelle pediu, então, que falássemos o que havíamos observado.

Antes de iniciarmos a discussão, uma das colegas perguntou quantos meses tinha Anna. E a formadora, imediatamente, mas de forma muito delicada, retrucou: “por que você quer saber?”.

Essa não era a resposta que esperávamos! Imaginávamos que seríamos informados da idade de Anna e, imediatamente, em nossas mentes, nós a compararíamos a outras crianças da mesma faixa etária. Todos nós ficamos meio atônitos ao nos questionarmos por que afinal desejávamos saber a idade dela: para que e de que forma usaríamos esse dado?

Isabelle disse: “ora, eu pedi que observassem o que se passava com Anna e não que a comparassem com outras crianças da mesma faixa de idade…”

Aprendida a lição! Deveríamos observar a Anna – esse indivíduo particular, com suas próprias características e história, que não são as mesmas de nenhum outro sujeito. Anna é única, assim como somos todos nós!

Em seguida, dissemos à nossa formadora que Anna parecia ter dificuldade com seu braço, que não conseguia virar-se com facilidade, que parecia querer desistir em um determinado momento … Seguíamos muito confiantes e orgulhosos em nossos pseudo-sábios comentários, quando fomos interrompidos por Isabelle: “mas eu não pedi para que observassem as capacidades de Anna?  Por que estão me relatando suas dificuldades?”

E, aí, nos demos conta de nosso vício… Temos a tendência de olhar as faltas e não o que temos. Não olhamos o que aquela pessoa faz, consegue ou conquista. Olhamos o que ela não alcançou e o que tem que conquistar. Nós, pais, tios, padrinhos, educadores ou profissionais da área da saúde, queremos que as crianças sejam e ajam de acordo com os nossos padrões, com os nossos desejos e expectativas.  

Ora, essa mudança de perspectiva  – de olhar as capacidades – fez e faz toda a diferença, porque passamos a observar Anna em toda a sua potência. Passamos a valorizar cada um de seus pequenos grandes esforços para virar-se. Conseguimos observar a antecipação do movimento, sua determinação, seu empenho em chegar onde queria e como lidava com as dificuldades no caminho… Passamos a enxergar Anna em seu “trabalho de bebê”, que envolve uma infinidade de conquistas que somente tivemos a capacidade de enxergar e valorizar, diante desta proposta de mudança de paradigma.

E o que um curso sobre bebês pode contribuir na minha formação como alguém que deseja trabalhar com pessoas com deficiência? A resposta é elementar: quando trabalhamos com gente, não importa a idade ou se têm deficiência, é fundamental que olhemos suas potências e não o que, talvez, lhes falte. (Flavia Parente)

2 comentários em “O caso Anna

  1. Por esta razão para se legitimar psicanalista na SBPRJ é obrigatório fazer um ano de observação “mãe/bebê”!É muito mais importante do que se pensa esta observação ! Ótimo texto! Parabéns ! Cecilia

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