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DESCRIÇÃO DA IMAGEM: A foto mostra um boneco com o rosto pintado como se fosse uma mistura de palhaço triste com espantalho. Ele está dentro de um cesto e veste uma camisa xadrez com lenço verde, cabelo imita uma palha e usa um chapéu de pano verde. Nariz pintado de vermelho e boca contornada com tinta branca. 

 

Por Ciça Melo*

“Leiam o cartão de instruções de segurança localizado no bolsão à sua frente”- disse a aeromoça naquele discurso inicial antes de levantar voo. Naquela fala automatizada que nem ela lembra mais o que está dizendo e ninguém efetivamente escuta.

Ninguém? Um menino não só escutou, como, mesmo sem saber ler, resolveu pegar o encarte: obedeceu o comando. Olhou bem as figuras e percebeu que ninguém mais agia como ele. Não teve dúvida. Foi até a aeromoça para avisá-la disto. Eu, curiosa, fiquei de olho para ver o que poderia acontecer. Será que ela seria grosseira com o garoto, que devia ter uns 8 anos? Será que ela mandaria o menino se sentar? Ou, ao contrário, explicaria algo para ele? De longe, eu notei que ela demorou a entender a preocupação do menino. Quando entendeu, riu. Achou graça. Só ela, porque o menino ficou sem resposta. E, desolado, voltou para o seu lugar, próximo do meu assento, com um grande ponto de interrogação sobre a cabeça.

“Difícil entender este mundo, não?”, pensei eu, olhando o menino que custou a entender que aquilo não era uma ordem. Só foi mesmo compreender quando a mãe lhe explicou a situação. Sorte a dele.

A história acima me fez refletir sobre as metáforas que usamos no dia a dia e que deixam o mundo incompreensível para tantas pessoas. Veja abaixo algumas delas:

– “Faça a sua cama”.
– “Está chovendo canivetes”
– “O bicho tá pegando…”
– “Você parece que está ligado na tomada!”
– “Ele fala pelos cotovelos”.
– “Eu estou latindo com o cachorro do vizinho”.
– “Ela é magra de ruim!”

Não percebemos o quanto usamos expressões que são um verdadeiro desafio para um grupo de crianças que vive no concreto ou que leva tudo ao pé da letra (ops). E, muitas vezes, essa incompreensão conduz a uma irritação – que, por sua vez, pode gerar agressividade. E, então, o mesmo ponto de interrogação vai sair da cabeça do menino e parar sobre os adultos: “Do nada ele bateu”. Do nada? Mesmo?

Sei que mudar toda uma linguagem é impossível, mas podemos estar mais atentos? Sim, podemos. Mas podemos também ensinar a nossos filhos que alguns têm mais dificuldades do que outros. Não podemos jamais deixar alguém sem resposta.


* Texto originalmente publicado na coluna Incluir para Crescer, do site da Revista Crescer, em 14/05/2018

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