variation-69470_1280Por Flavia Parente

Estava outro dia no metrô lotado, quando percebi a entrada no vagão de uma mãe com dois filhos adolescentes. Algo familiar em seu olhar me chamou atenção – era de preocupação. Paro, então, o que estava fazendo para observar aquela família. O olhar preocupado de uma mãe sempre me mobiliza. Quantas e quantas vezes esse olhar foi o meu?
Vagou um assento. Ela se vira para o filho mais velho e diz: “senta”. Não foi uma ordem ríspida; foi uma fala carregada de apreensão.

Percebi que o menino estava bastante pálido e suava muito. Olhei pra ele e disse, aos risos, “conheço este tom de voz… é melhor não discutir com a sua mãe e se sentar”. Ele, meio a contragosto, acaba se rendendo. O vagão estava cheio – havia tantas outras pessoas para sentar, por que ele um rapaz supostamente forte e no auge do seu vigor físico deveria ocupar aquele lugar?

A mãe me olha, agradece a intervenção, e pergunta ao filho se ele estava bem.
Uma luz amarela acendeu na minha cabeça – já tinha visto muitas cenas como esta antes. Era hipoglicemia, com certeza!

O rapaz procura algo na mochila. Eu abro a minha também. Ele retira seu kit para aferir o índice glicêmico ao mesmo tempo em que eu saco da bolsa o meu chocolate. Eles todos me olham surpresos e eu só digo: meu pai é diabético – eu sei o que é isso.
Ele tira da mochila o seu próprio chocolate e me diz:”tenho sempre um SOS”. Saltam na estação seguinte e eu sigo viagem.

Fico então pensando no quanto a convivência com alguém “diferente” me ensinou. Sabia o que era hipoglicemia, sabia como se sentia um diabético, estava ali pronta pra ajudar…

A inclusão faz parte de mim – fico pensando em como a vida seria mais fácil se todos tivéssemos a oportunidade de conviver com pessoas diferentes de nós mesmos. Saber que um colega com TDAH, às vezes, não consegue ficar 50 minutos sentado; saber que outro dentro do espectro autista, às vezes, precisa fazer movimentos repetitivos para se auto-regular; ou outro com Síndrome de Down vai aprender fração com chocolate; ou outro com baixa visão terá uma prova com fonte ampliada ou outro com dislexia tem direito a um ledor …

Se não tivesse um pai com diabetes, provavelmente não saberia reconhecer uma hipoglicemia, nem saberia o que fazer numa situação destas.

Fico pensando em como a convivência com a diversidade nos ensina todos os dias e como a escola é um ambiente perfeito para isso. Conhecer alguém diferente da gente, saber a sua história, compartilhar experiências no dia-a-dia acaba tornando todas as diferenças muito familiares. Com isso, não há a sensação de estranhamento, mas de compartilhamento da vida cotidiana.

A convivência com o diferente, portanto, nos ensina todos os dias, não apenas o que está nos currículos e livros, mas o que nos torna todos simplesmente humanos, capazes de sentir ou imaginar o que o outro sente.

2 comentários em “Convivendo se aprende!

  1. Vejo que a falta de entendimento em relação a diferença ainda predomina e por isso vem a tona os preconceitos e discriminações. Acredito num trabalho de sensibilização constante e que a qualidade de nossas intervenções trará grandes contribuições. Rubem Alves diz ” A educação se divide em duas partes, educação das habilidade e a educação das sensibilidades e sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são consideradas tolas e sem sentido”

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